Região turística, Chapada resiste ao fogo e ocupação hoteleira cai até 50%

12 Dez 2015
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Maioria dos atrativos funciona, mas as marcas de queimadas são visíveis.
'Está de cortar o coração', comenta gerente de hotel da cidade de Lençóis.

Considerada o coração da Bahia, a Chapada Diamantina, um destino de turismo de aventura mundialmente conhecido, sofre há meses com incêndios que comprometem a biodiversidade do Parque Nacional. Desde novembro, quando as chamas ganharam força, ao menos 50 mil hectares foram queimados, de acordo com a Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema) - um dos pontos mais devastados é o entorno do Morro do Pai Inácio, perto de Lençóis. Apesar da proximidade das festas de fim do ano, como o réveillon, a farta rede de hospedaria sente a redução do número de visitantes. O G1BA procurou alguns dos principais hotéis e pousadas, e parte teve baixa de até 50% nas reservas.

"Estamos bem próximo ao réveillon e temos somente metade das acomodações vendidas. Normalmente, nesse período, já estamos fechando as últimas reservas. Faço relação direta com os incêndios. É uma pena, mas é verdade. Tudo isso gera insegurança, porque o turista é cauteloso", disse Ney Paulo, gerente do hotel Canto das Águas, em Lençóis. Paulo afirmou que as atrações não estão fechadas e podem ser visitadas normalmente, mas que as marcas das queimadas são visíveis. "Está de cortar o coração. Os atrativos funcionam, mas com imagem desagradável que ninguém gostaria de ver. A nossa sorte é que a Chapada tem uma área bastante extensa e é possível fugir para locais fora dessa questão do fogo, como a Cachoeira do Sossego, Poço Encantado, Lapa Doce, Pratinha", citou.

A portuguesa Cristina Secio, recepcionista da pousada Vila Serrano, também em Lençóis, contou que os turistas geralmente entram em contato para monitorar como está a situação do fogo, e que a equipe tenta reverter possíveis cancelamentos explicando que a situação não interfere no turismo. "Apesar dos cancelamentos, temos conseguido explicar às pessoas que podem nos visitar da mesma forma e que a maior parte dos roteiros não está fechado. Temos muitas reservas de brasileiros, mas também de franceses, ingleses, norte-americanos, australianos. A notícia negativa acaba por prejudicar o turismo", relatou. 

A cerca de 80 km de Lençóis, a procura pelo Vale do Capão também é diretamente afetada. Na Pousada Lendas do Capão, o gerente Cristiano Argolo indicou que apenas quatro dos 22 quartos estão reservados atualmente. "Normalmente, nessa época estamos com pelo menos nove quartos alugados, porque o pessoal compra bem na hora. As notícias impactam, porque o pessoal acha que o fogo está aqui dentro. Conheço várias pousadas e estão todas vazias. O fim de ano vai ser difícil", comentou.

Silvia Martins, dona da pousada Pé no Mato, estima em 50% os cancelamentos. "Mas outras pessoas apostam e acreditam que daqui para lá vai chover. Teve gente que desmarcou até para o carnaval. Quando o incêndio foi noticiado na mídia, as pessoas começaram a cancelar. Mas naquela época não tinha fumaça no Vale. Trilhas ativas, o turismo normal. Lógico que estamos tristes, 5% do parque foi queimado. Mas o lugar que pegou fogo ninguém nunca andou, as pessoas acham que é aqui, mas estamos do outro lado. Agora, sim, dá para ver a fumaça", apontou.

Emmanuel Requião, proprierário da Pousada do Capão, também conta com os turistas que são adeptos do local e não desistem da visita mesmo com o fogo. "As pessoas conhecem o Vale, sabem que é agradável. Claro que uma parte dos passeios fica comprometida, mas há procura. O fogo afetou menos [locais] do que poderia ter afetado. Tem Angélicas, Rio Preto, Gerais [do Vieira], Riachinho, Conceição dos Gatos", apontou como exemplos dos atrativos. "A Chapada tem intimidade com o fogo, assim que chove fica tudo verdinho, já volta a se recuperar. Mas o céu está limpo, não tem nenhuma nuvem. Esse é o grande problema. As duas chuvas que deram, que achavámos que daria um refresco, foram muito poucas", disse.

Situação climática
Não há previsão de chuvas significativas na Chapada Diamantina pelo menos até a quarta (16), segundo o metereologista Heráclio Alves, do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema). "Se tiver, será bem fraca e passageira", contou. O clima continua seco, a temperatura alta e a umidade baixa. Tudo isso por conta de uma massa de ar quente e seco.

"Isso impede a formação de nuvens e a ocorrência de chuvas. A massa se intensifica mais pela influência do El Niño. A frente-fria que avança do sul do país não consegue romper a massa de ar seca. Com isso, ela bloqueia, fica parada, ou se desloca para o oceano", disse. Alves explicou que a massa cobre todo o estado e que não é comum, nessa época do ano, a falta de chuva.

Situação crítica
A preocupação está concentrada em três áreas: o Capão, a Cachoeira da Fumaça e o Morro Branco, informou o secretário Eugênio Spengler. Continua crítico o incêndio na região do Vale do Capão. Quatro trilhas estão fechadas: Cachoeira da fumaça, Fumacinha, Véu de Noiva e Buracão. Brigadistas e equipe de bombeiros do governo conseguiram evitar que as chamas invadissem a área urbana, mas ainda há risco do fogo se alastrar. Quatro trilhas continuam interditadas, são elas Cachoeira da Fumaça, Fumacinha, Véu de Noiva e Buracão.

"Quero registrar que a situação do incêndio na Chapada é altamente crítica. Na madrugada o fogo chegou muito próximos às residências [do Capão]. Tudo isso é agravado com situação de seca extrema, baixíssima umidade e ventos", explicou Spengler. A operação do programa "Bahia Sem Fogo" é realizada com 60 bombeiros militares, 40 brigadistas, oito peritos, além de quatro veículos tracionados, três helicópteros e seis aviões "air tractors", que conseguem transportar até 3,8 mil litros d´água. Foi pedido o apoio da Defesa Civil Nacional e a resposta deve sair nas próximas horas, informou o secretário.

Chamas se alastram
“O fogo está sem controle em Lençóis, de maneira que está ao redor da cidade inteira. O fogo está próximo da Cachoeira do 21 e vai sentido à Serra do Ribeirão do Meio. Temos também o fogo do Barro Branco. Na vila do Barro Branco, ao redor das casas, a vegetação já foi queimada”, disse o brigadista Janio Gledson Souza, da Brigada de Resgate Ambiental de Lençóis (Bral), na manhã desta sexta.

Ele contou que o fogo esteve a cerca de 5 km da cidade de Lençóis pela manhã. O grupo de brigadistas conta com apoio de aeronaves disponíveis pelo governo baiano, mas, ainda assim, ele apontou que isso não é suficiente. “É pouco helicóptero para dar apoio. A gente entra no intervalo de transporte dos bombeiros. Normalmente, a gente consegue o transporte, mas o incêndio ganha proporção”, apontou.

A Associação de Condutores de Visitantes do Vale do Capão (ACV-VC), que também tem uma brigada voluntária, enviou um comunicado, por meio do Facebook, nesta sexta-feira, em que convoca brigadistas para a situação emergencial do fogo na região. Matheus Pestro, um dos brigadistas, informou que a preocupação é a ameaça do fogo chegar a casas no Capão. “A linha de fogo vai da Cachoeira da Fumaça até a Gruta do Lapão. O clima está muito seco e parou de chover", disse, mais cedo.

Ibicoara: Chachoeira do Buracão
Em Ibicoara, também na Chapada, o fogo chegou a ameaçar a comunidade de Baixão, mas o fogo foi controlado, de acordo com a secretária de Turismo da cidade, Tatiana Portela. “O fogo estava avançando próximo da comunidade e se não tivesse controlado ontem [quinta, 10], já tinha chegado por lá”, apontou.

A trilha Cachoeira do Buracão, em Ibicoara, foi interditada pela prefeitura como medida preventiva. “Lá só é acessado com guias e como parte dos guias está em combate, a gente decidiu suspender. A gente precisa mover todas as forças para tentar combater focos de incêndio prioritários”, disse. A secretária ainda informou que há equipes de combate com aeronaves na localidade de Gerais de Machobombo, entre a cidade de Mucugê e Ibicoara, por conta de difícil acesso.

Trilhas fechadas
O chefe do Parque Nacional da Chapada, César Gonçalves, informou que as trilhas que dão acesso à Cachoeira da Fumaça, em Palmeiras; Gruta do Lapão, em Lençóis; Fumacinha e Véu de Noiva, em Ibicoara, continuam indisponíveis para visitação.

“A gente não está recomendando a visitação porque está perigoso. O problema é que, como a gente não está tendo chuva, a situação não está favorecendo e, mesmo com todos os esforços dos brigadistas, não estamos conseguindo. Estamos buscando reforços para tentar controlar a situação”, disse.

Ele ainda informou que as chuvas que atingiram a região no final de novembro foram pontuais, não atingiram a região inteira e acabou trazendo raios que provocaram vários focos. “O fogo não está tão ruim como estava em novembro, mas é preocupante, principalmente porque não conseguimos extinguir”, avaliou.

Riqueza natural
A Chapada reúne mais de 50 tipos de rquídeas, bromélias e trepadeiras e possui espécies animais raras como tamanduá-bandeira, tatu-canastra, porco-espinho, gatos selvagens, capivaras e inúmeros tipos de pássaros e cobras, segundo a Superintendência de Fomento ao Turismo do Estado da Bahia (Bahiatursa). O Parque Nacional foi criado na década de 1980 para atuar como órgão protetor da região.

O Parque tem uma vasta Mata Atlântica, composta por campos floridos e planícies de um verde, numa paisagem que mistura a caatinga e o cerrado. Os turistas encontram paredões, desfiladeiros, cânions, grutas, cavernas, rios e cachoeiras. Originalmente, a área era ocupada pelos índios Maracás e depois foi explorado por bandeirantes e exploradores em busca de jazidas e minérios. Ainda sobre história, o governo afirma que o primeiro registro de ouro foi em 1710.

Última modificação em Sábado, 12 Dezembro 2015 04:02
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