Dois dias depois de retornar ele me procurou. Estava cheio de questionamentos. Queria meu aconselhamento. O que tinha sido aquilo? Superatrasada paixão adolescente de verão? Hipertemporão namorico de praia?

Foto: svetikd / iStock

A expectativa dele era apenas tirar umas merecidas férias, nada daquelas grandes procuras de verdades interiores ou coisa parecida. Ela também queria só um pouco de descanso. Então, embarcaram e se encontraram, como nas poesias de Dante e de Bilac, “no meio do caminho”.

Escolheram ambos, ao acaso, um daqueles destinos nordestinos paradisíacos, cheios de sol, mar, sal, areia, brisa, coqueiros, redes (de dormir, de pescar, de contato humano), velas (de chama, de barco) fogueiras e, entre crepúsculos e auroras, luares.

Na primeira noite, casualmente, se conheceram. Rosto ardendo e cigarras estridulando. Compartilharam lugares contíguos num restaurante: força inesperada de uma enovelada sequência de coincidências que bastariam, elas mesmas, definitivamente, para comprovar o conceito de sincronicidade formulado pelo espiritualizado psicoterapeuta Carl Gustav Jung.

Sentaram lado a lado. A conversa animada das pessoas ao redor, a boa música, a lagosta arretada de pimenta, o vinho branco geladíssimo, nada desviava os olhos de um e do outro. Cronometraram, cegos para tudo, os cinco minutos suficientes para compreenderem que eram almas gêmeas.

Ele, que apenas a avistara de relance na confusão da chegada de um grupo grande de pessoas, agora ao lado dela, ousou: “você estudou balé muitos anos?”. Surpresa, a resposta veio emoldurada por um sorriso, verdadeira flecha diamantada que só a paixão pode afiar: “como você sabe?”. Ele também sorriu: “ah, teu corpo, o desenho das pernas, postura, o jeito de sentar, de mover as mãos, tudo de bailarina”.

Por debaixo da mesa, ao responder, segurou-a na mão. Ela apertou forte, puxou as mãos enlaçadas para pousarem macio na calha das coxas cruzadas com elegância. Bastante quente, a noite ficou ainda mais quente.

Os dias seguintes, sob um céu de cristal, janelas sempre abertas, doces como a cocada que arrematou o jantar do encontro, foram vividos com saudades deles já ao vivê-los. Após uma semana de oásis, bebida a taça inteira, soou esganiçado o primeiro acorde (attaca) da valsa do adeus. Como se preparados há muito tempo, sem súplicas ou lamentos, despediram-se. Melhor, abandonaram-se. O atracadouro da vilinha de pescadores? Uma saudade de pedra.

No meu consultório, menos de quarenta e oito horas depois da separação, o solicitado aconselhamento veio fácil. Vocês, queridos leitores, sabem tão bem quanto eu que não importa o que foi ou não foi. Fundamental é que foi bom, ótimo, excelente, maravilhoso. Reiluminou os sentidos e os gostos da vida. Como diz o genial Gonzaguinha: “é bonita!” E fica ainda mais bonita com festa e prazer.

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Fonte: Marina Gold

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