O general Yahya Rahim Safavi, conselheiro de Ali Khamenei, Líder Supremo e Grande Aiatolá do Irã, expressou há pouco uma iniciativa interessante. Em opinião dele, "o Irã deveria criar uma coalizão regional, que incluísse também a Rússia, a Síria, o Paquistão e o Iraque, com o fim de se opor à aliança estadunidense".

É pouco provável que o militar não tenha acordado sua postura com o aiatolá Khamenei, escreve o colunista Rostislav Ischenko em seu artigo especial para a Sputnik. De qualquer maneira, a declaração não passa de uma clara sondagem da posição russa em relação à formalização das relações de aliança com Teerã.

A medida escolhida para expressar a iniciativa, porém, indica que o Irã não está seguro em relação à resposta russa, pois no caso contrário tal ideia teria sido pronunciada no âmbito de consultas diplomáticas fechadas entre as duas chancelarias.

Vale destacar que um passo semelhante já tinha sido dado pelas autoridades chinesas há dois anos e meio. Entretanto, a Rússia evitou discutir as perspectivas de tal aliança.

"Há todos os motivos para acreditar que agora Moscou fará o mesmo", escreve Ischenko.

A estratégia russa, que Moscou tem aplicado ao longo das últimas duas décadas, não consiste em liquidar os EUA como um dos principais atores no palco internacional, mas fazer Washington respeitar as regras do jogo e os interesses dos outros países, assinala o autor.

"Ademais, a Rússia está interessada em laços sólidos e duradouros com a União Europeia no campo comercial e econômico, que no futuro devem fazer parte de uma união econômico-comercial (ou um sistema de uniões econômico-comerciais) que reúna a Grande Eurásia", sublinha o colunista.

Além disso, o jornalista argumenta por que Moscou optou por não se envolver no respectivo plano chinês. Primeiro, a formalização de uma aliança com a China (pois a cooperação política e militar informal já estão em curso) reforçaria as posições de Pequim no Pacífico. Ao se assegurar de uma aliança com Moscou, as autoridades chinesas poderiam tomar uma posição muito mais determinada em relação a Washington, o que, por exemplo, envolveria o Kremlin no conflito em torno do mar do Sul da China.

Esta disputa, por sua vez, não tem nada a ver com os interesses nacionais russos. Porém, neste caso Moscou estaria obrigada a transferir para o Extremo Oriente recursos adicionais.

"Deste modo, Moscou não só enfraqueceria suas forças em uma direção-chave (ocidental), mas também ela própria criaria condições para reforçar a aliança ocidental já bem desequilibrada. Os EUA não perderiam uma oportunidade de apresentar a aliança russo-chinesa como uma ameaça para toda a OTAN e os interesses do Ocidente coletivo. Em resultado, o objetivo estratégico russo para formar uma aliança econômica e comercial duradoura com a UE seria deixado para as calendas gregas", escreve Ischenko.

Para o autor, a hipótese de formar uma aliança com o Irã é bem parecida. Assim, caso a Rússia concorde firmar tal acordo, ela assumiria as obrigações para defender a Síria, o Irã e o Paquistão.

"Quanto à Síria, Moscou já a defende. O Paquistão evidencia relações cada vez piores com os EUA, mas seu maior inimigo regional é a Índia (que tem um relacionamento saudável com a Rússia) e seu principal aliado é a China. O Irã tem os mesmos interesses que a Rússia na Síria, mas Teerã concorre com Ancara pela liderança na região (não é por acaso que a Turquia não foi convidada para a aliança), o Irã tem sua própria guerra no Iêmen, onde Teerã se confronta com a Arábia Saudita, com quem a Rússia acordou esforços comuns para aumentar os preços do petróleo. E estes esforços já deram bastantes frutos. O Irã tem relações extremamente tensas com Israel. Neste conflito, a Rússia está mais interessada em desempenhar o papel de mediador do que de participante", escreve Ischenko.

Deste modo, no caso da celebração de um acordo de aliança, todos seus participantes mais fracos ganham a oportunidade de contar com o potencial militar e político russo e de se comportar de modo muito mais ousado com seus oponentes potenciais, enfatiza o autor.

Já no caso de um conflito armado, a Rússia enfrentaria um dilema, ou se envolver em uma guerra que ela não precisa, ou renunciar publicamente a suas obrigações; evidentemente, ambas as variantes são ruins.

"Uma grande potência militar, ao garantir segurança a um aliado mais fraco, não recebe as mesmas garantias de volta. Mais que isso, ela enfraquece sua própria segurança, pois aumenta o nível de ousadia de uma potência fraca nas disputas internacionais. Sabendo das garantias do aliado mais forte, o Estado mais fraco perde a capacidade de avaliar as ameaças adequadamente", resume o autor.


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