Ele é jovem, tem linhagem política célebre, fala bem e defende ideias contemporâneas, moderadas e equilibradas para seu país, dividido pela polarização que beira o ódio. Nenhuma surpresa que seja recebido como a esperada renovação da liderança política. Aos 37 anos, ao ser escalado para responder ao "Estado da União", o tradicional discurso presidencial no Congresso de abertura da legislatura, o deputado Democrata por Massachusetts, Joseph Kennedy III, neto de Bob Kennedy e sobrinho-neto de John Kennedy, deu renovadas esperanças ao partido Democrata. Esse papel, também tradicional, de fazer a réplica ao presidente, tem sido evitado pelas estrelas dos partidos, embora represente a possibilidade para a oposição de fazer o contraponto ao governante. As réplicas, pouco inspiradas, pouco repercutem, merecendo da imprensa apenas o obrigatório registro, em matérias muito menores que o discurso oficial. O papel tem sido evitado pelas lideranças mais expressivas dos partidos. Em geral, eles se mantém no plano da pura polarização, não empolgam nem ganham as manchetes.

Mas não com Joe Kennedy. Ele ganhou espaço estelar na imprensa e bombou nas redes e mídias sociais. Inspirando-se em Obama, atualizando a mensagem de Bill Clinton, do "stronger together" (mais forte juntos), dizendo que o povo unido na defesa de seu futuro tem mais poder, "é o que somos, dos muitos, um", ele se contrapôs, com elegância e serenidade, às ameaças às minorias, aos imigrantes e o discurso de ódio e segregação que Trump tem incentivado. Tocou fundo, por exemplo nos "Dreamers", jovens imigrantes protegidos pelo "Deferred Action for Childhood Arrivals -DACA" criado por Obama, e que se tornaram alvos da rejeição de Trump aos imigrantes.

Em tom de voz calmo, acusou Trump de atacar não apenas as leis que protegem a todos, mas a própria ideia de que as pessoas devam ser protegidas. O foco principal da crítica de Kennedy foi a posição discriminatória de Trump, que opõe uma parte da sociedade, escolhida para ter todos os benefícios, e outra, para sofrer todas as perdas. Para Kennedy, a escolha é simples, uma sociedade em que todos possam ganhar, com mais justiça, de forma mais equânime. "Somos bombardeados com uma falsa escolha atrás da outra", disse ele, "como se um mecânico em Pittsburgh, um professor em Tulsa, um assistente social em Birmingham, fossem rivais amargos e não vítimas de um sistema enviesado a favor dos que estão no topo". Kennedy equilibrou em seu discurso a tradição Democrata de Clinton e Obama, com a visão crítica mais à esquerda de Bernie Sanders, numa síntese moderada e contemporânea à agenda do século 21. Apelou ao centro, em um momento de posições extremadas.

Há muito tempo uma resposta ao "Estado da Nação" não tem tanta repercussão e cobertura tão ampla na imprensa. O impacto do discurso decorre, claro, em parte da mística da família Kennedy e sua trágica trajetória política. Mas, Joe Kennedy não se tornou um sucesso instantâneo com sua réplica a Trump. Ele já era uma presença viral nas redes sociais, com sua defesa intensa e emocional do "Affordable Care Act", o Obamacare, e as críticas fortes às propostas de Trump para substituí-lo. Com o discurso ele subiu foi ao pódio do seu partido. O grande fator por trás do sucesso de Joe Kennedy, todavia, é busca de uma vasta parcela da sociedade americana, provavelmente majoritária, por uma nova liderança. Os Estados Unidos, como o Brasil, estão a ver sua elite política envelhecer e degradar, sem que surjam novos e inspiradores talentos. Muitos eleitores, sentem-se órfãos de Obama, que também surgiu, jovem e inesperado, com oratória arrebatadora e as ideias que o país queria ouvir.

Nada garante que um novo Kennedy tomará o rumo da Casa Branca. É fato, porém, que, desde Bob, seu avô, e John, seu tio-avô, nenhum dos membros da família demonstrou o talento e a tranquilidade de enfrentar a fama e a herança trágica com tanta naturalidade. A reverberação de seu discurso, que surpreendeu e tocou, já o levou para outro patamar de liderança. É a estrela emergente dos Democratas. Mesmo aqueles analistas simpatizantes do partido, que fizeram críticas a partes do discurso de Joe Kennedy admitem que ele falou aos corações e mentes da maioria Democrata e todos terão que prestar atenção nele, daqui em diante.

* Sérgio Abranches é cientista político, escritor e comentarista da CBN. É colaborador do blog com análises do cenário político internacional

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