* Por Miriam Leitão

No primeiro passo, perdi o pé e vi que a queda era inevitável. Olhei os 17 degraus que me engoliriam segundos depois e pensei que teria que, de alguma forma, proteger o essencial. Lembro sempre desse instante da consciência da queda. Ele é breve e longo. Você já sabe seu destino e não há mais recuo possível. Foi há muito tempo, talvez 15 anos, mas eu nunca esqueci aquele segundo em que pendi no ar, indefesa e solta.

Eu vestia um terno amarelo, calçava um sapato de salto fino e era cedo demais. Não acendi a luz antes de pisar na escada. O sapato poderia ter sido calçado quando chegasse embaixo. Havia dormido tarde e estava com muito sono. Estes foram os erros que entendi ter cometido. Tudo pensei naquele instante em que o corpo pendia desajeitado e fora do meu controle.

No primeiro passo na escada, havia pisado em algum ponto com grande parte do pé fora do degrau. Foi quando o sapato e o chão de desencontraram de forma irreversível e eu comecei a cair. Minha mão procurou o corrimão e não o alcançou. Havia colocado aquele corrimão de madeira sólida, na largura exata para dar firmeza nas mãos, logo que compramos a casa. Pensava em dar segurança aos velhos da família que vinham de vez em quando me visitar. Naquele dia, ficou inalcançável e inútil.

Quanto tempo leva o corpo para encontrar o chão nessas circunstâncias? Fiapos de um instante. A mais incontornável das leis é impiedosa. O tempo fica então elástico. Um segundo se amplia para caber o medo, vários pensamentos e a formulação de uma estratégia que possa reduzir o dano. Pensei na coluna. Não a que eu escrevo, mas a que sustenta meu corpo. Precisava evitar a queda de costas. Me joguei de lado.

O culote é aquela parte do alto da coxa que no corpo feminino produz o efeito arredondado. Algumas mulheres acham que ele poderia ser menor. Estou nesse grupo. Mesmo quando era bem magra, o que fui durante toda a minha juventude, lá estavam eles arredondando o final dos quadris. Por um triz de segundo, lembrei que tinha culotes e que eles poderiam, enfim, mostrar seu valor.

Fui forçando o corpo que rolava para usar os culotes e poupar a coluna. A obsessão naquela dolorosa descida da escada em posição horizontal era evitar bater as costas. Fiz movimentos radicais para sempre bater de lado.

Rolei por todos os degraus. Descobri que 17 são muitos. Parei apenas quando encontrei a pedra de cantaria que forra o chão da sala de jantar. Na compra da casa, aqueles grandes blocos de pedra haviam me encantado porque davam um ar de construção antiga e sólida à residência. Fui recebida pela antiga dona com um ar alegre.

? Gostam de casa mineira?

Olhei para meu marido, mineiro como eu, e nos entendemos pelo olhar que havia terminado as buscas pela casa que compraríamos. Ainda não entendi até hoje a alegria da dona que perderia o local construído por ela e o marido quando os cinco filhos eram pequenos, nos anos 1950. A casa ficara grande demais para os dois sozinhos, ele padecendo de longa enfermidade. Venderiam o lugar onde haviam vivido para comprar um pequeno apartamento. Mas ela mostrava a casa com orgulho. E foi assim que nos exibiu as pedras de cantaria do chão, que mandara talhar especialmente para aquela ampla sala de jantar.

Gosto de andar por aqueles blocos de granito de pés descalços nos dias de calor, porque eles refrescam e me fazem sentir o gosto da infância nas casas que morei em Minas. Encontrá-los daquela forma abrupa, contudo, não foi agradável.

Ali onde eu chorei qualquer um chorava. Mas foi inútil. Era cedo demais, ninguém na casa ouviu o barulhão que fiz ao rolar pela escada. E me vi deitada no chão gemendo sem socorro. Me segurando aqui e ali consegui ficar de pé, e dar a volta por cima. Lembrei que estava atrasada para o trabalho. Olhei a roupa. O terno amarelo estava intacto. O chão estava limpo e ele nem se sujara. Senti o corpo. Nada parecia ter se quebrado. Calcei os sapatos e fui para a TV. Logo depois estava ao vivo comentando a notícia do dia. ?Você é dura na queda", me dissera Renato Machado no camarim quando contei o desastre. Não era, vi depois.

Aquele era um dia cheio. Tinha um café da manhã de trabalho, uma reunião com diretores do jornal, almoço com uma autoridade, o trabalho de escrever a coluna, e viagem até Petrópolis para fazer uma palestra. Foi no palco que senti o golpe. Ao encostar em alguma coisa senti uma forte dor na altura do culote. Na volta, ao sentar no carro não tinha posição. Ao chegar em casa e tirar a roupa eu vi que o corpo estava com enormes manchas. E os culotes eram duas beringelas. No dia seguinte quando tentei levantar, senti dor do pescoço aos pés. Os exames médicos confirmaram não haver fratura, mas foram dois meses em que fiquei com o corpo de duas cores.

Cada vez que vou descer uma escada, desde então, me lembro do medo que senti naquele breve instante entre o erro e o inevitável.

* Miriam Leitão é jornalista e escritora. Escreve crônicas aos sábados como colaboradora do Blog.

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