Há no Brasil artistas que independem de fazer discos relevantes e/ou de emplacar sucessivas músicas nas paradas para que se mantenham queridos pelo público e com agenda regular de shows por todo o país. Jair Alves de Souza (29 de janeiro de 1947 ? 23 de abril de 2017), o cantor paulistano popularmente conhecido como Jerry Adriani, foi um artista admitido nesse seleto clube.

Projetado como cantor de músicas italianas em 1964, um ano antes da fundação do reino da Jovem Guarda, Jerry logo passou a cantar em português e teve o nome associado ao primeiro movimento de música pop do Brasil, como integrante do segundo escalão da turma. Como outros tantos ídolos da Jovem Guarda, após o fim da festa de arromba, Jerry sempre se alimentou da aura conquistada naquele fugaz momento de glória. Nunca deixou de gravar discos após o período áureo, tendo pavimentado contínua carreira fonográfica na gravadora CBS ao longo da década de 1970. Só que o Brasil sempre celebrou Jerry Adriani mais pela figura simpática do artista, cristalizada na imagem de eterno galã do elenco da Jovem Guarda, do que propriamente pela discografia.

O lançamento da caixa Jerry Adriani ? Anos 80/90 corrobora esse fato ao embalar edições em CD de seis álbuns apresentados pelo cantor entre 1988 e 1996, quando o artista já vivia fase de entressafra fonográfica (sem nunca, no entanto, deixar de fazer shows pelo Brasil). Jerry (RGE, 1988), Parece que foi ontem (RGE, 1989), Elvis vive (Eldorado, 1990), Doce aventura (Eldorado, 1992), Rádio rock' romance (Eldorado, 1995) e Io (Albatroz, 1996) são álbuns a rigor irrelevantes, bancados por pequenas gravadoras com maior ou menor dose de nostalgia, para evocar os anos dourados da carreira do artista. O tributo ao cantor norte-americano Elvis Presley (1935 ? 1977), lançado em 1990, ainda soou gracioso e flagrou Jerry em pose de roqueiro que nunca disfarçou o fato de ele ter sido, em essência, um cantor popular romântico beneficiado pela fina estampa.

Produzida pelo pesquisador musical Marcelo Fróes para o selo Discobertas, a caixa Jerry Adriani ? Anos 80/90 tem valor documental para colecionadores de discos. Até pelo fato de reeditar no formato de CD álbuns lançados quando o mercado fonográfico do Brasil ainda vivia a transição do LP para o CD ? fase em que discos de artistas populares como Jerry não eram prioridade nas fábricas de CDs.

Para quem cultua a discografia do cantor, a caixa presta bom serviço à memória fonográfica nacional ao repor em catálogo esses seis álbuns. Mas não pelos discos em si, cabe ressaltar. Querido até sair de cena em abril do ano passado, aos 70 anos, Jerry Adriani foi cantor maior e mais importante do que a obra fonográfica que gravou entre 1964 e 2012. (Cotação: * * *)


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