Com sucesso massivo no universo pop brasileiro desde 2016, a dupla Anavitória vem dançando conforme a música do mainstream, ditada pelo ritmo da indústria, para se manter em evidência. O que implica a diluição do domínio autoral da obra. Após o EP Anavitória canta para pessoas pequenas, pessoas grandes e não pessoas também, disco direcionado ao público infanto-juvenil e lançado em outubro de 2017 às vésperas do Dia das Crianças, Ana Caetano e Vitória Falcão repõem o bloco na rua com o EP carnavalesco Anavitória canta para foliões de bloco, foliões de avenida e não foliões também, disponível nas plataformas digitais desde ontem, 2 de fevereiro, em edição da gravadora Universal Music.

Tal como o EP anterior, o atual reúne quatro fonogramas, sendo uma música inédita e três regravações de temas alheios, no caso de sucessos associados à música afro-pop-baiana rotulada como axé music na segunda metade década de 1980. A diferença é que, em vez de Alexandre Kassin, produtor do disco de 2017, o EP Anavitória canta para foliões de bloco, foliões de avenida e não foliões também foi formatado pelo arranjador baiano Radamés Venâncio ? habituado a colaborações com a cantora Ivete Sangalo, uma das estrelas da axé music ? com o produtor galês Paul Ralphes, estranho no ninho baiano.

Gravado com o baticum de percussionistas de Salvador (BA), o disco tem o mérito de repaginar três inspiradas músicas do universo afro-pop-baiano para o vasto público jovem que segue Anavitória em shows, redes sociais e plataformas digitais. Composição que ostenta uma das melodias mais belas do axé, lançada pela Banda Mel no álbum Negra (1991), Baianidade nagô (Evandro Rodrigues, 1991) é a faixa que mais bem sintetiza a mistura pretendida pelos produtores juntamente com Me abraça (Jorge Xaréu e Roberto Moura, 1995), sucesso da Banda Eva, lançado no álbum Hora H (1995).

Em Baianidade nagô, o canto suave da dupla originária da interiorana cidade de Araguaína (TO) evoca um clima de bossa nova no clima sereno do arranjo. Claro que falta à dupla a baianidade nagô do título da música, mas a melodia está lá com toda a lindeza, valorizada pelas vozes do duo e conduzida pelo toque ameno da percussão. Em Me abraça, a ambiência baiana sobressai mais, mas não a ponto de diluir a arquitetura da melodia ? pecado às vezes cometido em gravações de axé ? e a suavidade do canto de Ana Caetano e Vitória Falcão.

Vem meu amor (Silvio e Guio, 1992) ? sucesso do grupo baiano Olodum em 1992 que a Banda Eva tomou para si a partir de 1997 no disco ao vivo que representou o ápice de Ivete Sangalo como vocalista da Eva ? surte menor efeito com Anavitória porque a pulsação rítmica é a tônica da música. E, ali, falta calor e falta a tal baianidade à dupla em gravação que persegue em vão o registro da Eva com Ivete, não conseguindo ir além do cover.

Por fim, a música inédita Clareiamô é parceria de Ana Caetano e Vitória Falcão com Saulo Fernandes, cantor e compositor baiano que vem lutando para resgatar valores básicos da axé music. Composta pela dupla feminina em São Paulo (SP) e finalizada com parte adicionada por Saulo em Salvador (BA), Clareiamô é samba que remete à fase de ouro da produção de axé. Saulo participa da gravação desta música que impede que a dupla Anavitória se torne mera crooner de sucessos alheios para dançar conforme a música e o ritmo da indústria. (Cotação: * * * 1/2)


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