Datas marcadas foram criadas para homenagens ou para acender o alerta vermelho na humanidade. Pois na semana passada tivemos dois eventos com data marcada: no dia 16 de outubro comemorou-se o Dia Internacional da Alimentação e, no dia seguinte, 17, foi a vez de lembrarmos que é preciso olhar para os que nada têm ou têm pouco, com o Dia Internacional para a Erradicação da Pobreza. Dois alertas vermelhos mais do que necessários, já que 821 milhões de pessoas ainda passam fome no mundo, segundo dados da FAO, agência das Nações Unidas para a Agricultura, dois bilhões de pessoas têm deficiência alimentar. O que quer dizer, é óbvio, que a pobreza também se alastra pelos mesmos caminhos.

Um dado importante: os dez países onde mais existem pessoas com fome estão na África.

Não custa lembrar também que em 2015 a ONU determinou 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável a serem atingidos pelos países até 2030. A erradicação da pobreza é o primeiro e o fim da fome no mundo é o segundo ODS.

Como lembram os ecossocioeconmistas, o fato de ainda termos tanta gente que não acessa corretamente o necessário para se alimentar não tem a ver com falta de alimentos, mas sim com uma péssima distribuição de comida. Aqui no Brasil, o sistema agropecuário segue a lógica da produção industrial, ?em que enormes áreas de floresta são abertas e convertidas em pasto e monoculturas, especialmente de grãos?, conforme denunciam os ambientalistas no site do Greenpeace. Por causa disso, como já se sabe, é cada vez mais necessário o uso de agrotóxicos, o que diminui bastante a possibilidade de termos alimentos saudáveis à mesa.

Aqui, vale visitar uma passagem da obra de Yuval Noah Harari, ?Sapiens ? Uma breve História da Humanidade? (Ed. L&PM, de bolso), quando ele conta sobre a revolução agrícola. Antes dela, e estamos falando de cerca de dez mil anos atrás,os caçadores-coletores usavam as próprias mãos e se relacionavam com a natureza de maneira simples, buscando uma forma variada e nutritiva para se alimentar.

?Em vez de penunciar uma nova era de vida tranquila, a Revolução Agrícola proporcionou aos agricultores uma vida em geral mais difícil e menos gratificante que a dos caçadores-coletores. Estes passavam o tempo com atividades mais variadas e estimulantes e estavam menos expostos à ameaça de fome e doença. A Revolução Agrícola certamente aumentou o total de alimentos à disposição da humanidade, mas os alimentos extras não se traduziram em uma dieta melhor ou em mais lazer. Em vez disso, se traduziram em explosões populacionais e elites favorecidas. Em média, um agricultor trabalhava mais que um caçador-coletor e obtinha em troca uma dieta pior. A Revolução Agrícola foi a maior fraude da história. .. Os culpados foram o arroz e a batata. As plantas domesticaram o Homo Sapiens, e não o contrário?, escreve ele.

Voltamos para os dias atuais. Do outro lado da corda da desnutrição, está outro mal: aumenta o número de pessoas que sofrem de obesidade, doença que vem se alastrando mundo afora e já chega a atingir 672 milhões de pessoas. E sempre afetando os mais pobres. Um estudo recente feito na Inglaterra concluiu que 12,5% de crianças de áreas carentes são obesas, enquanto nas áreas mais ricas da cidade este número cai para 5,7%.

?A insegurança alimentar contribui para o excesso de peso e obesidade. O maior custo de alimentos nutritivos, o estresse de viver com insegurança alimentar e adaptações fisiológicas restrição alimentar ajuda a explicar por que as famílias inseguras alimentares pode ter um risco maior de sobrepeso e obesidade?, diz o último relatório da FAO sobre o Estado de Segurança Alimentar no mundo.

Neste cenário, sexta-feira passada (19) o Comitê de Segurança Alimentar (CSA) concluiu sua 45ª reunião anual, com líderes de empresas e sociedade civil, assumindo o compromisso de formular diretrizes a serem aprovadas em 2020 para os sistemas de alimentação e nutrição. O objetivo das diretrizes será ?abordar as causas fundamentais da vulnerabilidade para todas as formas de desnutrição em diferentes tipos de sistemas alimentares em ambas as áreas rurais e urbanas, com especial atenção para a população nutricionalmente mais pobre e vulnerável". Mas tem um problema: são diretrizes voluntárias, ou seja, os países só tomarão como referência, usarão como uma espécie de aconselhamento.

A ONU também declarou que estamos na Década da Nutrição. Pesquisando mais a fundo sobre os resultados específicos deste tipo de anúncio e de iniciativas, é possível perceber que para alguns países trata-se de um empurrão necessário para se tornarem mais reconhecidos internacionalmente, portanto mais atraentes para investidores. No fundo, a roda gira mesmo é em torno do capital, mas se for para uma boa causa, que seja. O Equador, por exemplo, tratou logo de declarar seu apoio à Década de Ação da ONU sobre Nutrição e anunciou as medidas que pretendia começar a tomar. Entre eles, o encorajamento à amamentação, o que pelo menos para nós, aqui no Brasil, já é uma prática adotada e disseminada.

Se tivermos que aprender com nossos antepassados, às iniciativas de marcar datas, criar plataformas, agendar metas universais, a humanidade deveria também usar um método que talvez exija menos esforços e consiga resultados mais profícuos: a diversidade dos alimentos. Traduzindo para a nossa época, isto quer dizer diminuir a prática de monocultura. E isto quer dizer, também, dar força e encorajar as práticas de agroecologia, com pequenos agricultores que possam também disseminar o desenvolvimento local. Para esta receita dar certo é preciso uma mudança nos hábitos de produção e consumo. É preciso ter vontade política e acreditar que o menos pode ser mais.

Como eu disse no início do texto, datas comemorativas podem ser bons estopins para reflexões que nos levem a pensar em mudanças. Muito de tudo isso que foi escrito acima depende da vontade política dos governantes. Mas os governantes são escolhidos pelos cidadãos comuns. Para isso é preciso ter informações e cá estou eu, cumprindo meu papel como jornalista, de disseminá-las de forma correta, baseada em referências verdadeiras.

Boas reflexões a todos neste início de semana.


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