Em uma entrevista feita com o antropólogo e fotógrafo Pierre Verger, na qual o entrevistador lhe perguntou sobre sua trajetória e por que havia escolhido estas profissões, Pierre Verger respondeu, com o seu português cheio de sotaque e doçura, que sua vida fora feita mais pelo que ele não queria ser e não porque tivesse traçado um plano. Foi trilhando seu caminho pelos nãos, e assim, com o passar do tempo, a vida virara o que havia sido.

A resposta talvez não tenha sido data exatamente assim, mas a ideia me marcou profundamente porque sem querer me comparar ao grande mestre, pensei exatamente isso quando me deparei com a necessidade de organizar o material acumulado ao longo da minha carreira. Só não me perdi no meio dele porque em uma ocasião meu brilhante aluno Cristiano Matsinhe, de Moçambique, havia arrumado em caixas e classificado os documentos desorganizados. Foi muito difícil o momento de decidir sair da sala no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS), onde trabalhei por mais de quarenta anos, pois tive de me defrontar com meu passado. Lembrei-me de Verger com respeito e admiração, porque, também fui fazendo a vida pelo que não queria ser e acabei construindo um arquivo repleto da minha trajetória.

Por que a falta de planejamento? Nasci em uma família de fundadores da ciência, mas mulher. Não era suposto que as meninas seguissem alguma carreira. Éramos criadas para casar e ter filhos. Quis a vida, ou o azar, que eu perdesse meus pais muito nova. Aos quinze anos tive de assumir o papel de dona da casa e de zelar pelo bem estar dos irmãos mais velhos e mais novos. Não sentia esse destino como uma escolha, era a vida.

Pensava em ajudar meus irmãos e nunca me passou pela cabeça não cumprir minhas obrigações, mas tinha certeza de que, não queria ter o destino de minha mãe, morta aos quarenta e cinco anos no parto do décimo filho. Minha mãe fizera alguns anos na Escola de Belas Artes e abandonou-a quando se casou. Continuou a pintar e foi parando aos poucos com o nascimento dos filhos. Guardo ainda a foto do seu último quadro inacabado.

Com tantos afazeres domésticos poderia ter decidido parar de estudar, mas aconteceu o contrário. Fiquei com tanto pavor daquela sina da minha mãe que comecei a estudar mais. Nunca havia sido boa aluna, aliás, tive alguma dificuldade em aprender a ler e escrever. Não me sentia à vontade sendo uma aluna fraca em meio a irmãos mais velhos e mais novos muito estudiosos e cheios de medalhas. Depois da morte de meu pai fui gostando mais do estudo e me afastando do modelo de mulher do lar. Não deixei meus irmãos sem meu apoio, mas estudava.

Até que, chegando a hora de fazer o vestibular, uma grande amiga me salvou. Vinha de uma família de mulheres professoras e intelectuais nas áreas de humanas e conhecendo bem minha rotina doméstica, um dia me disse: ?Se você não estudar, não vai passar no vestibular?. Levei um susto porque com a mesma firmeza minha amiga me convidou para ir estudar com ela em Niterói onde morava. Foi uma reviravolta e fiquei tanto tempo em sua casa que meu irmão mais velho quis saber que família era aquela que estava me acolhendo. Atravessou a baía e foi visitar a mãe da minha amiga e verificar se eu estava mesmo estudando. Foi assim que, meses enfiada nos livros, consegui passar para o curso de ciências sociais na antiga Universidade do Brasil.

A escolha do curso foi também uma recusa em seguir os passos dos meus irmãos mais ligados às ciências ditas exatas. Não conseguia me interessar pelos números e gostava de ler sobre cultura popular, folclore e, ainda no colégio, influenciada por uma professora, busquei a biblioteca do Instituto do Folclore, Amadeo Amaral, criada por Edson Carneiro. Lá passava muitas tardes lendo muito, muitas vezes sem entender muito bem.

Os meus nãos me levaram para a vida acadêmica e para a pesquisa em um terreiro de umbanda no Rio. Não fui mãe senão aos trinta e cinco anos e naquela época, considerada ?primípara velha?. Porém, antes disso havia me aprofundado na pesquisa sobre religião afro-brasileira e sobre feitiçaria, e quando meu filho nasceu era uma professora com dez anos de carreira.

Quando comecei a organizar meu material de arquivo pensei nesses acasos e percebi que ali estava um caminho de muita de pesquisa, ensino e amores. Selecionava o que me parecia importante e pensava: O que fazer com o resto? O que também seria relevante?

Um dia, Celso Castro, sempre generoso, me sugeriu sistematizar o documentário que eu tinha filmado em 1978 como forma de festejar os quarenta anos da publicação do meu primeiro livro Guerra de orixá. Fiquei feliz e fui até o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC). Em uma conversa, Celso Castro e Arbel Griner me lembraram do material que eu havia entregue na ocasião em que fui entrevistada para o projeto ?Memória das Ciências Sociais no Brasil? coordenado por Celso Castro. Entre outros documentos havia o filme em super8 feito em dois terreiros no Rio de Janeiro. Revendo toda a papelada e os filmes fiquei bastante emocionada e perguntei a Celso o que faria com o imenso arquivo da minha vida, ainda na sala do IFCS. Meu amigo logo disse: ?Traga pra cá?.

Meses depois Daniele Chaves Amado, coordenadora de documentação do CPDOC e sua equipe estavam na minha sala no IFCS com caixas em que recolheram o material para o Programa de Arquivos Pessoais. A ideia de criar um arquivo de pesquisas e trabalhos de cientistas sociais é muito profícuo porque para o bem ou para o mal os pesquisadores do futuro poderão nos julgar com mais precisão.

Nesses últimos tempos, Adelina Cruz, pesquisadora da documentação, tem me chamado algumas vezes para esclarecer dúvidas e pensar uma forma de catalogar o material. Ela e o documentarista Marcos viram até aqui dois caminhos para a classificação: o que deu origem ao livro Guerra de orixá e o longo percurso para chegar ao livro Medo do feitiço.

Da última vez que estive na belíssima Casa Acervo, onde está o meu material já higienizado e grande parte catalogado, me dei conta de que havia ainda a pesquisa sobre o centenário da abolição da escravatura em 1988 que gerou muitas perguntas sobre as relações raciais em perspectiva comparada, os sistemas de classificação racial e sobre os movimentos negros. Este material deu origem ao belo Arquivo Abolição sob os cuidados de Heloisa Buarque de Holanda no Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC). Gerou ainda uma pesquisa sob os auspícios da Fundação Rockefeller que me levou a retomar estudos sobre sistemas de classificação racial e trouxe para o IFCS pesquisadores do mundo todo e do Brasil para repensar a questão. Por fim, tentando entender como e por que as famosas cotas raciais estavam sendo demandadas entrei na pesquisa sobre escolas que me levou a buscar entender o etos escolar e a cultura da escola investigando com meus alunos o dia a dia dos rituais escolares em instituições de ensino médio da rede pública do Rio de Janeiro. O material está ainda sendo trabalhado e o arquivo sob a responsabilidade de Ana Pires do Prado, minha colega da Faculdade de Educação da UFRJ que, desde 2004, trabalha comigo.

Há ainda documentação sobre os quarenta e três anos dedicados ao ensino em especial a criação do Programa de Iniciação Científica no IFCS e o Programa Moçambique realizados em colaboração com os colegas do então departamento de Ciências Sociais no final dos anos 1980.

A história do meu arquivo é a história de uma vida construída sobre a negativa de um modelo feminino familiar e sobre acasos, nem tão acasos, guiados pelo carinho de amigos e amigas que me ajudaram a romper muitas barreiras.


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