Melhoras são necessariamente mudanças. Mudanças necessariamente causam estranhamentos.

A FLIP, em suas últimas edições, tem estado estranha.

E melhor.

Por muitos anos, desde seu princípio, a Festa Literária Internacional de Paraty, foi como qualquer reunião literária no ocidente. Uma celebração masculina e branca.

Mesmo em suas mesas e discussões debates, nunca houve um estranhamento verdadeiro, desses que azedam o doce e civilizado estabilishment que homens brancos construíram para brincar de debate.

Chá da Academia Brasileira de Letras do século XXI.

Cartas e caras marcadas.

Toda FLIP a arte do encontro era, na prática, todo ano cruzar com as mesmas pessoas nas ruas da cidade.

Então, definitivamente este ano, chegaram os estranhos.

Melhor, as estranhas.

Mulheres, negras, pequeninas editoras.

Alternativas que vieram se juntar ao que sempre esteve.

A programação alternativa da FLIP foi o assunto mais comentado desta edição. E veio para ficar.

O valor de encontrar novos livros, novas obras, principalmente a que não encontramos em grandes livrarias. Não encontramos em lugar algum, em loja alguma, porque o mercado é fechado e controlado por poucos.

Como qualquer mercado.

O valor do encontro com a genuína novidade tem seu preço.

Novos debates, novas dinâmicas.

O lacre.

Que homens da minha geração, já anacrônicos, não sabem muito bem lidar com. Não estamos acostumados a sermos contrariados. Não estamos acostumados a estar fora do centro da condução e atenção.

Na Casa do Desejo, o coletivo Mulherio de Letras lançou livros, estranhou, trovejou, sangrou. Teve editor acusado de racismo, polícia na porta, nota oficial da FLIP.

Na tenda principal, o sucesso de Djamila Ribeiro, tão negra quanto Lázaro Ramos que, com Dona Diva e Lima Barreto foram os premonitórios destaques da edição do ano passado.

A escritora russa Liudimila Petruchévskaia, aos 80 anos, velha de guerra nas regras masculinas dos encontros literários, jogou o protocolo pro ar e cantou Besame Mucho.

E a presença Conceição Evaristo, cujo reconhecimento já a torna maior que a cadeira na Academia Brasileira de Letras que a opinião pública aguarda.

As youtubers que se dedicam a falar de literatura tomando o espaço da critíca literária, predominante e secularmente masculina.

A slammer pernambucana Bell Puã e essa nova literatura de voz alta, gritada.

O repente e a peixeira agora na boca da mulher.

Faca nos dentes.

Enquanto isso, os de sempre, os que sempre e desde sempre pensavam ser para sempre, os que vêem na FLIP um feriado aconchegante, a doce confraternização de firma que são as festas literárias, estranhando tudo.

Ou, resumindo tudo dito aqui em duas palavras: Hilda Hilst.

Esse incômodo, esse estranhamento, essa maravilha, essa melhora.

Esse auge.

Esse começo.


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