Conheça o estilo mais lento, melódico, com batidas quebradas e agudas do funk mineiro, e saiba como o hit do MC L da Vinte produzido por Delano é ponta-de-lança de uma cena em expansão.

Conheça o funk mineiro

Nos últimos dias, apareceu um funk diferente entre as 10 músicas mais tocadas no Brasil: contraste entre base grave e batidas agudas, andamento mais lento e quebrado, vocal com mais melodia e até mais silêncio. O clipe não é do onipresente Kondzilla, produtor de SP, e o sotaque também não é carioca. "Parado no bailão", de MC L da Vinte e Gury, é cria do funk mineiro (veja vídeo acima).

Na última quinta-feira (18), 'Parado no bailão" ficou na 4º posição do YouTube e na 10º do Spotify entre as mais tocadas no Brasil. O clima é mais "viajado" - na direção oposta do frenético funk 150 do Rio, outra tendência atual. O estilo já domina os bailes da capital mineira e se expande.

"Eu já tinha público em Belo Horizonte e em alguns lugares do interior. Até mesmo no Sul, como em Florianópolis. Agora essa música está fazendo meu trabalho se espalhar", diz Leonardo Miranda de Souza, 19 anos, o L da Vinte, do bairro Planalto, Zona Norte de BH.

L da Vinte é um dos jovens cantores de uma cena que cresceu e desenvolveu nos últimos dois anos um estilo próprio à margem dos maiores centros do funk, Rio e SP. Hoje, nomes como os dele e dos MCs Rick, Kaio, Vitin LC e Pkzinho são mais requisitados em bailes locais que os ídolos de fora.

Despontam também produtores musicais (DJs PH da Serra, TG da Inestan, Frog) , de vídeo (não só a já antiga Tom Produções, mas novidades como a Doug Filmes) e culturais (o centro Lá da Favelinha, com projetos de dança e artes).

Mas a figura central desta cena atual é Delano, MC, produtor e empresário. Ele já tinha destaque nacional desde antes da formação desta cena, com hits como "Na ponta ela fica". Ativo nos bastidores, Delano é produtor de "Parado no bailão" e sócio da The Gang, agência que tem L da Vinte no elenco.

Que funk é esse?

"Parado no bailão" ilustra o estilo de BH, mas tem uma produção mais palatável para o resto do país - tanto que o MC convidado por L da Vinte é um paulista, o MC Gury, o que ajuda a faixa a ter espaço no mercado de São Paulo. As marcas "mineiras" estão presentes, mas amenizadas.

O funk meio "espacial" tem batidas agudas que parecem de latas batendo ou garrafas quebrando, entre outros efeitos. Dá para associar alguns elementos à influência de Delano: a levada mais lenta e melódica, a mistura de ritmos, os instrumentos reais, gravados ou sampleados. Mas nem tudo tem a ver com ele, e nem com um "inventor" - foi criação coletiva.

O DJ PH (Pedro Henrique Dias Viera, 21 anos, da Serra, Zona Sul da cidade), de "Cobiçadas do Twitter", com MC Rick. é um dos pioneiros. "Não é aquele funk só para dançar. Mas para escutar também, tipo hop hop. Dá para ouvir no baile, no carro, em casa", define o produtor, fã dos rappers Eminem e Migos.

"A gente mistura: baixa um violino ali, uma flauta ali, piano de hip hop, essas coisas. Aí muda a tonalidade, mistura os beats. Geralmente é uma coisa bem trabalhada, difícil. Para fazer funk de SP ou do Rio eu demoraria menos tempo", diz PH.

'BH é nóis'

Erick Warley de Oliveira Rodrigues, 19 anos, o MC Rick, é mais breve ao definir o estilo no qual ele se destaca. "É um beat com muita informação", ele descreve. O cantor do Morro do Papagaio, da Zona Sul, também é criador do grande bordão do funk mineiro.

"BH é quem?", Rick pergunta para os fãs. "É nóis", o público responde.

Um dos maiores bailes da cidade acontece na Serra, na Zona Sul, com até 10 mil pessoas por noite. Em frente ao local do baile fica o centro cultural Lá da Favelinha, que dá aos moradores oficinas gratuitas de dança, moda, arte, idiomas e música.

Centro Cultural Lá da Favelinha oferece oficinas de artes e educação em aglomerado de BH

Kdu dos Anjos, que também é MC, está à frente do Lá da Favelinha. Ele destaca a organização do baile da Serra, e o fato de ser feito com alvará da Prefeitura. "Isso está inspirando muitas outras comunidades a se organizarem".

O Lá da Favelinha também se destaca pela a Disputa Nervosa, batalha de passinho que virou grande evento na cidade, e revela cantoras como Teffy Angel, de linha mais pop e funk melody.

Outro resultado do sucesso do funk é o crescimento das produtoras de vídeo. A Tom Produções, de BH, já era ativa nas cenas mineiras e do Rio desde 2008. Mas a cena atual também abre espaço para outras empresas. É o caso da Doug Filmes, criada por Henrique Douglas dos Santos.

"Fazia vídeos institucionais e há dois anos percebi a grande busca por clipes de funk", diz o diretor, que começou a filmar por conta própria aos 13 anos. Hoje, aos 20, ele já é dono de uma empresa com 10 funcionários. Ele enfrenta a concorrência do gigante Kondzilla com a maior proximidade de artistas de BH e modelo mais flexível (faz vídeos para o próprio canal ou de terceiros).

Quem é Delano?

Mas a maior história de "empreendedor do funk" de BH é a de Delano Axel Silva Amaral, o MC Delano, 21 anos. Ele veio de uma família de músicos que tinha uma banda de festas de casamento. Aprendeu a tocar vários instrumentos por conta própria e entrou para uma escola de samba, antes de virar DJ e cantor de funk.

"Tive uma trajetória musical desde os 9 anos que somou muito para o funk que eu faço hoje em dia", ele diz. Seus dois hits de 2015, "Na ponta ela fica" e "Devagarinho", se destacavam pelo uso do cavaquinho e percussão de samba, dois anos antes de "Olha a explosão", do paulista Kevinho, um hit mundial com mistura muito parecida.

Delano tem contrato com a gravadora Warner e lança um single por mês (o mais recente é "Se arrependeu"). Mas ele também é produtor de várias faixas dos MCs mais jovens, como "Sarro, gosto", que revelou MC Rick, e o hit atual "Parado no bailão". Sua produtora, The Gang, também está abrindo uma frente de gravação dos próprios clipes.

"Delano é o principal o responsável pela renovação da cena mineira", analisa o jornalista e pesquisador Gabriel Albuquerque. "Além da mistura irresistível do beat, grave, pandeiro e cavaquinho, as músicas apresentam um refinamento até então inédito na produção".

Ele ressalta as "várias camadas, efeitos sutis e uma pegada mais atmosférica" que Delano introduziu. "É uma arquitetura sônica minuciosa e experimental, mas ainda assim cativante."

Gabriel lembra que o funk mineiro já tem uma história que vem dos bailes blacks dos anos 1970, e que grupos de Minas participaram das históricas coletâneas Funk Brasil 2 e 3, do DJ Malboro, lembradas só pelos artistas cariocas. Nos anos 2000, também houve uma fase de destaque do "funk consciente", como Yuri BH.

Mas a fase atual é inaugurada por Delano. "Ele foi o responsável por descolar o funk mineiro de suas raízes e lançá-lo no futuro, mergulhando de cabeça na sonoridade dos anos 2010".

"Para mim, os DJs do funk mineiro são atualmente os produtores musicais mais inventivos da música pop brasileira. Mas toda essa pequena revolução descende da ruptura radical iniciada por Delano", diz Gabriel.

Cara de Minas?

"Acho que tem a ver com essa onda de o mineiro comer quieto. Se o carioca acelera a 150, a gente viaja em outra onda. Eu viajo no Delano porque ele foi o divisor de águas com essas músicas mais lentinhas. E quando explodem, em vez de ser só o atabaque, vem cavaco, sopro, samples mais melódicos, mineiros", analisa Kdu.

Mas o funk atual não traduz só uma suposta "tranquilidade" do mineiro. PH da Serra comenta:

"Tem mineiro que é doido também. Mesmo que o pessoal goste mais desse ritmo lento. E a coisa melódica, da viola, pode estar na nossa genética´... Eu só sei que essa produção não é para qualquer um", diz o produtor.


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