'A casa que Jack construiu' retrata assassino de mulheres, com cenas de violência extrema. História faz afronta ao MeToo e ironiza carreira do próprio cineasta dinamarquês.

Trailer do filme 'A casa que Jack construiu'

Lars von Trier se especializou em levar a polêmica ao extremo, e usá-la ao seu favor.

Em 2011, o diretor dinamarquês foi banido do Festival de Cannes depois de expressar "simpatia" por Hitler, fazendo seu nome ser ouvido até por quem só vai ao cinema quando um novo "Velozes e furiosos" é lançado. Dois anos depois, colocou horas e horas de sexo explícito em "Ninfomaníaca", e provocou uma corrida às bilheterias.

Agora, para surpresa de ninguém, retorna igualmente disposto a chocar. "A casa que Jack construiu", recheado de cenas sádicas e violência bastante gráfica, estreia em 1º de novembro no Brasil.

Afronta ao MeToo

Sob a atmosfera da onda feminista em Hollywood, o cineasta retrata um assassino em série que prefere matar mulheres. "Os homens já nascem culpados", enquanto "elas são sempre vítimas", ironiza o protagonista de Matt Dillon.

Von Trier já foi relacionado a um relato de assédio sexual feito pela cantora Björk, estrela de seu "Dançando no escuro" (2000). A acusação, que ele nega, serviu para inflamar ainda mais parte da crítica a chamar seu novo filme de misógino.

Mas não dá para resumir "A casa que Jack construiu" só como uma afronta ao movimento MeToo.

Com humor sórdido, a trama mostra a obsessão de Jack pela perfeição. Em um terreno vazio, ele constrói e destrói os alicerces de uma casa várias vezes, sempre insatisfeito com o resultado. Seus crimes são prolongados pela mania de limpeza, que lhe obriga a voltar várias vezes para checar se não sobraram manchas de sangue.

O que satisfaz o personagem não é a morte em si, mas as fotos que faz dos cadáveres em posições macabras depois. Considera-se mais que um assassino, um artista.

Divina comédia

Numa estrutura similar à de "Ninfomaníaca", o protagonista narra sua trajetória a um interlocutor, enquanto vaga em confissões sobre seu vício. Quem ouve é Verge (Bruno Ganz), personagem inspirado em Virgílio, guia do inferno e do purgatório em ?A divina comédia?, de Dante.

Na verborragia sobreposta por cenas arrastadas, o assassino fala da alma humana, discursa sobre o papel da arte e satiriza uma sociedade indiferente a gritos de socorro alheios. Mas, acima de tudo, faz uma reflexão irônica sobre a carreira do próprio cineasta, no mais egocêntrico de seus filmes.

Flashes violentos de obras anteriores do diretor piscam na tela, em meio a imagens de pinturas clássicas e trechos de desenhos animados. Jack se questiona: a maldade que ele expõe na ficção é uma fuga de desejos reais? Von Trier não tem medo de parecer repugnante.

Até o problemático comentário sobre Hitler aparece. Justamente no filme que marcou a volta do diretor a Cannes, sete anos depois do escândalo. Um retorno pela porta dos fundos - fora da competição e sem coletiva de imprensa. Mas ainda assim um retorno.

Na mostra francesa, as cenas de mutilação (que envolvem até crianças) causaram uma debandada da sala de cinema durante a exibição. É claro que isso foi parar na imprensa, aumentando a curiosidade sobre o filme. O diretor conseguiu o que queria. De novo.


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