Se quiser mesmo ser candidato, o apresentador precisa entender que precisará estar preparado para governar

O apresentador Luciano Huck deverá fazer, depois do Carnaval, um novo anúncio a respeito de sua intenção de concorrer à Presidência. Em manifestação enviada ao processo que sofre no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) por campanha antecipada, ele reiterou o que afirmara em artigo publicado em novembro: não é candidato.

Mas continua a se movimentar como se fosse. Quem acompanha o noticiário lerá a respeito de seus conselheiros econômicos, programa, inspiração e parceiros num eventual governo. Lerá também que Huck conta com o apoio velado do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, insatisfeito com a candidatura do tucano Geraldo Alckmin.

Os predicados de Huck são óbvios. É um homem de televisão bem-sucedido, popular e sem os danos de imagem que mancham os políticos de carreira. Embora seja a mais perfeita expressão da elite que desperta tanta repulsa, ele consegue, em virtude da carreira televisiva, estabelecer comunicação direta com o povo.

Ninguém sabe ao certo que tipo de ideia Huck defende, mas se imagina que ficaria num campo político alcunhado ?centro?, por oposição à polarização ideológica entre as candidaturas do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (ou quem quer que o PT indique para substituí-lo) e do deputado Jair Bolsonaro.

Nesse ?centro?, cabe basicamente qualquer coisa que não seja nem PT nem Bolsonaro. Cabe um banqueiro que ocupa a cadeira de ministro da Fazenda. Cabe a ex-ambientalista que rompeu com o PT e quase chegou lá em 2014. Cabem aqueles que se apresentam como o ?novo?. Cabe o presidente da Câmara. Cabe até o atual presidente da República. E cabe, naturalmene, o ?picolé de chuchu?, precursor na arte de satisfazer a qualquer público com sua imagem cambiante e sem sabor.

Não é muito difícil deduzir que todos esses perderiam com uma eventual candidatura Huck, afinal eles disputam o mesmo voto, o insatisfeito com as opções PT e Bolsonaro.

Bolsonaro, que corteja esse voto para crescer, também perderia. Mas menos que os demais, já que seu eleitorado se consolidou. Em contrapartida, ele se beneficiaria da pulverização do voto do ?centro? entre vários nomes. Basta lembrar que, em 1989, sete candidatos pontuaram acima de 4,5%, permitindo que Lula passasse ao segundo turno com apenas 17,2% dos votos, patamar aproximado de Bolsonaro hoje na pesquisa estimulada.

De acordo com a última sondagem do Datafolha, divulgada em janeiro, o eleitor indefinido ainda é ampla maioria. Dois terços do eleitorado não sabem em quem votar ou afirmam que votarão nulo ou branco. Lula e Bolsonaro estão estacionados desde a metade do ano passado, o primeiro em 17%, o segundo em 10% na pesquisa espontânea (na estimulada, esses valores correspondem a 35% e 18%).

De que existe, portanto, espaço para um terceiro nome que atraia a maioria indefinida, não há dúvida. A questão é se alguma das opções apresentadas tem mais chance que as demais, a ponto de destacar-se e evitar a pulverização que apenas beneficiaria o voto nos dois extremos. Nesse ponto, embora a pesquisa seja nebulosa, ela não favorece Huck.

Os nomes logo após Lula e Bolsonaro na estimulada são Marina Silva (7% a 16%, dependendo do cenário), Ciro Gomes (6% a 13%) e Alckmin (6% a 11%). Huck vem logo em seguida (5% a 8%). No patamar médio de 8%, Alckmin supera Huck (6%). Este fica mais próximo de João Doria (5%), Álvaro Dias (5%) e Joaquim Barbosa (4%).

Os resultados da pesquisas não passam, é claro, de pretexto para os movimentos. A aposta em nomes externos à política tem mais relação com o sentimento, frequente entre políticos e empresários, de que o eleitorado revoltado precisa ser apaziguado ? ou então poderá tomar uma decisão arriscada demais.

Há um erro óbvio nessa visão. O que pode haver de mais arriscado do que pôr na Presidência da República alguém sem a menor experiência política, sem nenhum conhecimento de gestão pública, cujos maiores predicados são o sucesso na televisão, a rede de relacionamento e a certeza de que não representa nenhum dos dois campos políticos que contam com inequívoco apoio popular?

Nem é preciso citar Silvio Berlusconi ou Donald Trump para enxergar as limitações de Huck. Basta lembrar o próprio Lula, atordoado nos primeiros meses de governo, até entender em que consiste o trabalho do presidente. Seu governo ficou desde o início nas mãos dos ministros José Dirceu e Antônio Palocci, hoje criminosos condenados, como o próprio Lula. Se quiser candidatar-se, Huck precisa desde já compreender que o risco maior se apresenta para ele mesmo: ter de governar.

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