Crise econômica deu impulso a partidos populistas e candidatos a 'líderes fortes' em potências ocidentais e países asiáticos, mas estilo já aparecia na América Latina.

O que o presidente americano Donald Trump, o líder do Partido Trabalhista inglês Jeremy Corbyn e o presidente filipino Rodrigo Duterte têm em comum?

Apesar de seus diferentes estilos de liderança e ideologias, os três foram descritos por analistas políticos como populistas.

O populismo é considerado em ascensão nos últimos anos - especialmente na direita europeia e nos Estados Unidos, onde ajudou a eleger Trump. No Brasil, tanto ex-presidentes de esquerda, como Luiz Inácio Lula da Silva, quanto candidatos de direita, como o deputado Jair Bolsonaro, já foram chamados de populistas.

Já na Itália, os partidos populistas Movimento Cinco Estrelas e Liga anti-imigrantes se destacaram na última eleição - o resultado mais recente deste tipo no continente europeu.

Mas há uma diferença entre ser popular e ser populista.

'Povo puro'

Na ciência política, o populismo é a ideia de que a sociedade se divide em dois grupos antagônicos - o "povo puro" e a "elite corrupta", de acordo com o cientista político holandês Cas Mudde, autor do livro Populism: A Very Short Introduction (Populismo: Uma Introdução Muito Breve, em tradução livre).

O termo foi popularizado como um insulto político comum. O líder trabalhista britânico, Jeremy Corbyn, por exemplo, foi acusado de populismo por causa do slogan do seu partido: "para os muitos, não para os poucos". Mas isso não é exatamente a mesma coisa.

A palavra é "geralmente mal utilizada, especialmente no contexto europeu", segundo o especialista em populismo na política Benjamin Moffitt, da Universidade de Uppsala, na Suécia, autor do livro The Global Rise of Populism (O Crescimento Global do Populismo, em tradução livre).

Um verdadeiro líder populista, segundo ele, diz representar a "vontade unificada do povo". Ele geralmente se apresenta em oposição a um tipo de inimigo, que pode ser o sistema atual - e afirma que vai "drenar o pântano" ou enfrentar a "elite liberal".

"No contexto europeu, esse tipo de discurso aparece mais à direita, mas essa não é uma regra imutável", afirma Moffitt.

Crescimento da direita

Partidos populistas podem estar em qualquer lugar no espectro político. Na América Latina, um dos mais notórios é o do ex-presidente venezuelano Hugo Chávez. Na Espanha, há o partido Podemos. E na Grécia o mesmo rótulo tem sido usado para o Syriza. Todos esses estão situados à esquerda.

No entanto, segundo Cas Mudde, os "populistas mais bem-sucedidos hoje estão na direita, especialmente na direita radical".

"(São políticos) Como Marine Le Pen na França, Viktor Orbán na Hungria e Donald Trump nos Estados Unidos, que combinam populismo com nacionalismo, anti-imigração e autoritarismo", diz.

O crescimento do populismo de direita não é novo, esclarece Benjamin Moffitt. "Os cientistas políticos estão falando nisso há uns 25, 30 anos. Mas, de fato, houve uma aceleração."

Os especialistas dizem que tanto mudanças sociais como o multiculturalismo e a globalização quanto as crises econômicas e sociais mais complexas estão por trás do crescimento desses partidos populistas na Europa.

Martin Bull, diretor do Consórcio Europeu de Pesquisa Política (ECPR, na sigla em inglês), diz que a ascensão de partidos populistas na Europa já podia ser visto no início dos anos 2000 - mas eles permaneceram pequenos por muitos anos.

O aumento do apoio para essas plataformas pareceu acontecer "a partir de 2008 - e especialmente em 2011, quando a crise financeira se transformou em uma crise de dívidas soberanas".

Segundo Bull, foi uma rara ocasião em que uma parte da elite - os banqueiros ricos - conseguiu ser identificada como mais ou menos responsável por uma crise que afetou a maior parte da sociedade.

'Eu sou o povo'

Em seu livro The Global Rise of Populism, Moffitt argumenta que há outros traços também associados ao líder populista típico.

Um deles é "não ter bons modos" - ou não se comportar da maneira típica dos políticos -, uma tática empregada tanto por Donald Trump quanto por Rodrigo Duterte, nas Filipinas.

O outro, segundo ele, é "perpetuar um estado de crise", ou seja, estar sempre na ofensiva contra algo ou alguém em seus discursos.

"Um líder populista que sobe ao poder é 'forçado' a ficar em campanha permanente para convencer o povo de que ele não é igual aos outros políticos - e nunca será", diz a professora Nadia Urbinati, da Universidade de Columbia (EUA).

Ela argumenta que o conteúdo populista é "feito de negativos" - seja a antipolítica, o anti-intelectualismo ou o discurso anti-elite. E justamente nisto está uma das forças do populismo: ele é versátil.

"É (um discurso) muito poderoso porque se adapta a todas as situações", afirma.

Outro traço comum entre líderes populistas é que eles tendem a não gostar dos "sistemas democráticos complicados" do governo moderno - preferindo a democracia direta por meio de referendos, de acordo com Martin Bull.

Isso também estabelece laços entre o populismo e o autoritarismo, na opinião do especialista - uma vez que a desconfiança no sistema estabelecido cria personagens vistos como "líderes fortes".

"No fim das contas, o líder toma decisões de uma maneira que simplesmente não é possível nas democracias tradicionais", diz. Esse sentimento é bem ilustrado por Hugo Chávez, que chegou a dizer: 'Eu não sou um indivíduo. Eu sou o povo'."

No entanto, Moffitt alerta para o fato de que "tal linha de raciocínio pode levar (líderes) a pensarem que são infalíveis". "Isso reestrutura o espaço político de uma maneira nova e assustadora."

Afinal, se você não está "com o povo", deve estar contra ele.

É por isso que líderes populistas costumam ser vistos com desconfiança, e é também por isso que o termo costuma ser usado como insulto a um político que promete muitas coisas - o que Martin Bull chama de "oferta irresponsável".

"Para conseguir angariar apoio, eles fazem ofertas e prometem mudar as coisas mais rapidamente do que seu próprio partido. Examinando de perto, muitas dessas coisas podem acabar não sendo factíveis."

"A gente acaba se perguntando o quão bom isso realmente é para a democracia", pondera.

Mais Lidos

Publicidades