Depois de Alemanha e Itália, a Espanha mergulha num período de incerteza política

Depois de Alemanha e Itália, a Espanha é o terceiro país europeu diante de uma crise política de desfecho incerto, com a queda do premiê Mariano Rajoy, do Partido Popular (PP), no poder desde 2011.

O novo premiê é Pedro Sánchez, 46 anos, do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE). Com o apoio obtido ontem do Partido Nacionalista Basco (PNV), ele reuniu o voto de 180 dos 350 deputados no Parlamento Espanhol, quatro acima do necessário para derrubar Rajoy. Votaram contra 169 deputados, e um se absteve.

Além dos bascos e dos 84 votos do PSOE, a moção de desconfiança contra Rajoy foi apoiada pelo esquerdista Podemos (67), pelos independentistas catalães e outros partidos menores. Pela primeira vez, o mecanismo constitucional foi usado com êxito para derrubar um primeiro-ministro espanhol (falharam tentativas em 1980, 1987 e 2017, esta última contra o próprio Rajoy).

O governo Rajoy sobreviveu incólume a crises sucessivas, deflagradas pela política de austeridade contra a recessão e pela tentativa de independência da Catalunha no final do ano passado. Mas não à condenação de seu partido por corrupção, no escândalo conhecido como Caso Gürtel.

A mais alta corte do país condenou na semana passada o partido e 29 de seus integrantes por crimes que envolvem corrupção, fraudes, lavagem de dinheiro, tráfico de influência e desvio de recursos. Na essência, o escândalo desvendou na Espanha o mecanismo descoberto no Brasil pela Operação Lava Jato: empreiteiras financiavam políticos para obter contratos com o Estado.

?Havia um autêntico sistema de corrupção institucionalizada?, concluíram os juízes. A condenação atribui ao PP a manipulação de mercados e o uso disseminado de caixa dois. Diante do tribunal, Rajoy negou a existência da contabilidade paralela. As provas levantadas nas investigações tornaram insustentável sua permanência no poder.

O governo Sánchez começa com uma dificuldade óbvia: a falta de legitimidade. Nas eleições legislativas de junho de 2016, o PSOE obteve seu pior resultado na história recente, depois que o próprio Sánchez tentara sem sucesso formar uma coalizão para governar o país.

Aquela com que conseguiu derrubar Rajoy se apoia numa aliança frágil com os bascos (a quem prometeu a manutenção das benesses orçamentárias) e separatistas catalães (com quem assumiu o compromisso de ?estender pontes? de diálogo). O PSOE ainda disputa o mesmo eleitorado com seu maior rival, o Podemos, novo rosto da esquerda espanhola nascido das manifestações de rua.

Sánchez se recusa a falar em novas eleições. Mas apenas as urnas podem dar legitimidade a qualquer governo. ?Com sua recusa em convocar as urnas para resolver a grave crise, os líderes dos dois partidos que governaram a democracia mostram que não têm confiança em si mesmos nem em seus eleitores para que renovem o apoio que lhes deram noutros tempos?, diz o El País em editorial.

Diante da condenação pela Justiça, a queda de Rajoy era inevitável. Ela põe a Espanha numa situação de incerteza semelhante à de outros países da Europa Ocidental. Na Alemanha, a chanceler Angela Merkel levou quase seis meses entre as eleições e a formação de seu governo. Na Itália, apenas ontem o presidente Sergio Mattarella aceitou a nova proposta da aliança populista entre Liga e Movimento Cinco Estrelas (M5E).

Nos três casos, parcelas expressivas do eleitorado manifestam sua insatisfação com as políticas de austeridade promovidas sob o comando da União Europeia (UE) para retirar o bloco da crise financeira. Em comum, Podemos, M5E ou Liga na Itália, Alternativa para a Alemanha (AfD) ou a Frente Nacional na França têm a mesma desconfiança do euro, dos bancos e e das instituições europeias.

Rajoy caiu por causa da corrupção. Mas sua queda se dá no contexto do populismo que, à esquerda ou à direita, ganha força no continente com um programa de rejeição aos ditames de Bruxelas. A UE está agora diante de mais uma crise política. Se não souber ouvir os sinais evidentes pelo continente, haverá outras ainda piores no futuro.

Mais Lidos