Todos os dias, ?s 8h, Darcy Dias da Cunha chega ao cemit?rio municipal de Brumadinho. De um ponto alto do morro, enquanto o sol corta o horizonte, o aposentado de 78 anos mira a pequena cidade de casas baixas e ruas pouco movimentadas.

Clique aqui para ler vers?o especial desta reportagem.

Todos os dias, ?s 8h, Darcy Dias da Cunha chega ao cemit?rio municipal de Brumadinho. De um ponto alto do morro, enquanto o sol corta o horizonte, o aposentado de 78 anos mira a pequena cidade de casas baixas e ruas pouco movimentadas.

Vindo do alto, um som constante de helic?pteros preenche o ar. Eles carregam equipes de resgate at? a lama que corta o vale como uma enorme cicatriz vermelha. As buscas por corpos s? terminam quando anoitece.

Pai de 12 filhos, Cunha tem passado todos os dias, voluntariamente, no cemit?rio desde que a barragem se rompeu. Em sil?ncio, ele se senta nos degraus de uma escada e espera.

"Eu s? estou esperando ela chegar", diz, com os olhos opacos de tristeza e catarata. "Eu sei que v?o ligar para prepararem as coisas no cemit?rio quando ela for identificada."

Ela se chama Ros?ria, tinha 27 anos, e trabalhava como funcion?ria administrativa da mineradora Vale, dona da barragem rompida. Filha de Cunha, Ros?ria esteve entre as primeiras pessoas a serem engolidas pela lama t?xica.

Nesta cidade unida e religiosa, onde todos trabalhavam ou conheciam quem trabalhasse na Vale, a comunidade ainda est? em choque. Um m?s depois do colapso, 179 corpos foram identificados, mas as buscas pelos restos mortais de pelo menos 131 desaparecidos continuam.

N?o h? qualquer chance de se encontrarem sobreviventes, dizem autoridades locais.

Cunha acredita que a not?cia chegar? mais r?pido ao cemit?rio do que aos ouvidos da esposa Helena.

Desde que soube da trag?dia, ele conta, a idosa de 73 anos passa dias sentada na cal?ada da velha casa de telhas vermelhas gritando em v?o.

"Por favor, me apare?a, Ros?ria. Por favor, volte para a sua m?e", repete a mulher, lembrando-se de como a filha fechava os olhos enquanto Helena desembara?ava os fios de seus cabelos compridos, no que havia se tornado um pequeno ritual familiar, todos os dias depois do trabalho.

No dia da trag?dia, quando souberam que a filha estava entre os desaparecidos, Darcy e Helena viajaram por 2 horas no carro de familiares at? um hospital de Belo Horizonte em busca de not?cias.

Ros?ria n?o estava l?. Como outras fam?lias que buscavam parentes no hospital, eles foram orientados a fornecer amostras de DNA ao Instituto M?dico Legal.

Os dados da fam?lia est?o num banco que j? re?ne mais de 530 amostras de atingidos de Brumadinho.

Ros?ria tinha dois filhos, um de 8, outro de 12 anos. No final daquela sexta-feira sem fim, quando o casal de idosos voltou para casa, as crian?as brincavam em um canto da sala de estar.

Enquanto a TV em frente ao velho sof? mostrava imagens do desastre, os adultos achavam que conversavam discretamente.

At? o filho de 12 anos se levantar.

"Eu sei o que aconteceu", disse ele, chorando muito. "Minha m?e morreu, n?o morreu?"

Enquanto a fam?lia tentava responder, o irm?o mais novo come?ou a bater a cabe?a com for?a na parede.

"Eu sei que ela n?o vai voltar", gritava.

Cunha narra a cena enquanto olha para um c?o marrom de pelos longos, sua companhia no cemit?rio.

"Este ? o Violeiro", aponta o homem, mostrando um sorriso pela primeira vez.

Perto dos dois, o coveiro Atenagos Moreira de Jesus, de 63 anos, conta que a parte mais dif?cil do trabalho ? consolar as fam?lias de amigos que se veem diante da miss?o de enterrar apenas parte dos corpos de parentes.

Com a for?a da lama, centenas de ?rvores, caminh?es e destro?os de constru??es se chocaram com as v?timas, desfazendo boa parte dos corpos.

Com 20 anos de experi?ncia ? frente do cemit?rio, Jesus tem enterrado pelo menos 3 amigos por dia.

"Meu trabalho ? cavar buracos. Agora o buraco mais fundo ficou no meu cora??o", diz Jesus, chorando. "Essa ? a ?ltima coisa que posso fazer pelos meus amigos e eu tenho feito com todo o amor do mundo."

Os helic?pteros d?o uma breve tr?gua e o homem continua, enxugando as l?grimas na gola da camisa xadrez.

"Fico preocupado com os que n?o v?o conseguir enterrar seus parentes. A? ? como se fosse uma falha minha."

Apoiado numa l?pide, Cunha acompanha outras fam?lias vindo enterrar seus parentes. Protegendo das chuvas de ver?o, uma prociss?o de guarda-chuvas pretos serpenteia os jazigos no compasso de um pandeiro.

Cunha continua esperando. Ele diz que aqui se sente mais perto de Deus - e mais forte para lidar com as not?cias sobre a filha, quando e se elas chegarem.

"Eu quero carregar o caix?o", ele diz. "Sou forte. N?o quero morrer antes de carregar o caix?o."

O colapso

Era hora do almo?o naquela sexta-feira ensolarada, 25 de janeiro.

Todos os dias, junto a pelo menos 200 outros funcion?rios da mineradora Vale, Ros?ria ia almo?ar no refeit?rio do Complexo do C?rrego do Feij?o.

Ela trabalhava em um dos pr?dios administrativos da mina, que ficava a poucos minutos de ?nibus corporativo da ?rea reservada para refei??es.

?s 12h28, um barulho parecido com o de um inc?ndio come?ou. A parede de sustenta??o da barragem 1, de 86 metros de altura, havia desmoronado.

Em 90 segundos, o refeit?rio, os escrit?rios e dezenas de ve?culos pesados usados na minera??o haviam sido engolidos pela lama.

Ana Paula da Silva Mota trabalhava como motorista de caminh?es da Vale. Orgulhosa do trabalho, ela era respons?vel por deslocar na ca?amba do ve?culo mais de 90 toneladas de min?rio de ferro desde a mina at? os vag?es do trem, que por sua vez levava o min?rio para os portos da mineradora.

Mota estava dentro do caminh?o, a apenas 550 metros da barragem, no momento em que ela se rompeu.

"Eu estava de frente para a barragem. Acho que fui uma das primeiras pessoas a ver (a avalanche). N?o dava para acreditar", diz Ana Paula.

"A gente achava que essa barragem estava seca. Olhando de cima, parecia um campo de futebol, firme, duro, n?o tinha esse lama?al. Ningu?m imaginava que estava assim por dentro", conta.

Em segundos, o que tem sido descrito como um "tsunami" de lama come?ou a se espalhar pelo vale a mais de 70km/h.

Ana Paula pegou o r?dio.

"Quando caiu a ficha, peguei o r?dio transmissor (do ve?culo) e comecei a gritar desesperada: 'corre, foge, a barragem estourou'. Quem estava naquela faixa (de r?dio) me escutou gritando. Depois, fiquei sabendo que teve gente que escapou porque ouviu uma mulher chorar e gritar no r?dio. Era eu", diz ela.

A avalanche passou a cerca de 100 metros do caminh?o de Rocha. Ela conta que perdeu mais de 20 colegas na trag?dia, incluindo uma tia.

Casas, fazendas, planta??es, rios e ?reas de mata atl?ntica foram soterradas. Nas comunidades de C?rrego do Feij?o e Parque da Cachoeira, dezenas de constru??es foram totalmente destru?das.

"O barulho era alto demais. As ?rvores estalavam umas nas outras como se fosse um inc?ndio", conta a moradora Telmilia Dur?es da Rocha, de 63 anos, enquanto circula pelos escombros da "casa dos nossos sonhos", constru?da durante os ?ltimos 20 anos ao lado do marido.

O casal conseguiu escapar de carro, mas deixou tudo para tr?s.

"A gente correu pro carro e viu a avalanche de lama vindo na nossa dire??o e destruindo tudo. Essa casa era a minha vida", ela diz.

A barragem destru?da abrigava restos - conhecidos como "rejeitos" - da minera??o de ferro realizada na mina que ficava no mesmo complexo.

A forma mais barata de armazenar estes subprodutos da minera??o ? compact?-los dentro de uma barragem. Os l?quidos s?o drenados para que o lodo endure?a. Uma cobertura de grama ? plantada no topo - como em um campo de futebol.

No entanto, se houver problemas de drenagem, trag?dias podem ocorrer.

A barragem de Brumadinho oferecia um risco extra, j? que suas paredes eram feitas de camadas sobre camadas empilhadas de rejeitos.

Em outras palavras, ? como se o lixo da sua cozinha fosse feito, n?o de metal ou pl?stico, mas de restos compactados de frutas, legumes e carne.

Este tipo de barragem, conhecida como "barragem a montante", ? mais suscet?vel a rachaduras em caso de infiltra??es. As rachaduras, por sua vez, podem levar ao desmoronamento das estruturas.

O modelo ? usado por diferentes mineradoras em todo o mundo, incluindo no Canad? e na Austr?lia. Estas barragens, por?m, precisam de investimentos, monitoramento e manuten??o regulares.

Por isso, em outros pa?ses sul-americanos como Peru e Chile, o formato ? proibido.

"? a forma mais comum porque ? mais barata para se construir e mais r?pida de se licenciar porque ocupa menos espa?o da bacia hidrogr?fica. Mas ? tamb?m a mais perigosa e com maior risco. Por isso pa?ses com caracter?sticas similares ?s do Brasil n?o usam ou est?o proibindo", explica o ge?logo Eduardo Marques, professor da Universidade Federal de Vi?osa (UFV).

No dia do rompimento, o alarme de emerg?ncia, criado para dar tempo suficiente para que as pessoas escapassem, n?o funcionou.

Muitos dos familiares em luto pela trag?dia dizem que, se o alarme tivesse funcionado, menos vidas teriam sido perdidas.

Principal produtora de min?rio de ferro do planeta e maior mineradora do Brasil, a Vale ? respons?vel por quase 80% do ferro exportado pelo pa?s.

Em 2017, seus lucros superaram R$ 100 milh?es (ou 34 bilh?es de d?lares). Em uma entrevista coletiva pouco ap?s a trag?dia, o presidente da companhia, Fabio Schvartsman, disse a jornalistas que o sistema de alarmes havia sido "engolfado" ap?s a ruptura da barragem.

"Aconteceu um fato que n?o ? muito usual: houve um rompimento muito r?pido da barragem", declarou.

Em nota enviada mais tarde ? BBC, a Vale disse: ""Devido ? velocidade com que ocorreu o evento, n?o foi poss?vel acionar as sirenes relativas ? barragem".

Mas o professor de engenharia de minas Sergio Medici de Eston, da Universidade de S?o Paulo, rejeita a explica??o.

"Falar que a sirene n?o tocou porque o evento foi muito r?pido ? brincadeira", ele diz. "A sirene n?o ? para tocar s? quando a barragem cai. A sirene pode tocar quando a coisa come?a a ficar cr?tica, ?s vezes semanas antes, para as pessoas ficarem em alerta."

Em Brumadinho, todos os olhos est?o voltados para a Vale. Os atingidos pela trag?dia tentam encontrar respostas para o que ocorreu - mas, primeiro, elas buscam encontrar seus entes queridos.

Os socorristas

Manobrando pelo rio Paraopeba em um bote de resgates infl?vel, Eduardo veste uma segunda pele vermelha e preta e um capacete amarelo.

Atendendo a uma ocorr?ncia registrada por dois pesquisadores que colhiam amostras do rio para medir n?veis de toxicidade, o bombeiro olha atentamente para as margens em busca de sinais.

Sufocado pelo lodo vermelho, o rio vai perdendo, pouco a pouco, sinais de vida. Peixes mortos podem ser vistos boiando com as bocas abertas. Os mosquitos, at? ent?o abundantes, se dispersaram.

Eduardo finalmente encontra o que buscava: um torso sem pernas ou cabe?a preso a um conjunto de galhos amontoados.

Com imenso cuidado, Eduardo e dois colegas bombeiros se posicionam para trazer o corpo para o bote. Cruzando os dedos com os de sua m?o, como em um delicado cumprimento, Eduardo puxa lentamente o tronco, que depois ? i?ado por um helic?ptero.

Com os cora??es disparados e tremendo ap?s o encontro inesperado, os pesquisadores decidem continuar a expedi??o pelo rio, agora com a escolta de Eduardo e seus colegas.

Mas, metros ? frente, na margem esquerda do rio, o grupo encontra uma perna.

A expedi??o dos civis ? ent?o cancelada.

A opera??o de resgate ? enorme. Aproximadamente 400 oficiais, entre bombeiros, policiais, membros do Ex?rcito e da For?a Nacional lutam contra o tempo, na lama, com o apoio de helic?pteros, tratores e c?es farejadores.

Em alguns locais, eles contam que trabalham sobre 15 metros de lama.

Os bombeiros arriscam suas vidas enquanto procuram por corpos, mas precisam se proteger e minimizar riscos de infec??o para poder completar a miss?o.

Depois de horas cavando e revirando a lama contaminada, eles passam por um banho de descontamina??o com detergentes e sab?o antibacteriano. Ap?s voltarem para casa, todos ser?o testados pelos pr?ximos 6 meses para terem certeza que est?o saud?veis e que n?o foram contaminados pelos res?duos t?xicos presentes na lama.

"Encontrei dois corpos hoje", conta o jovem bombeiro Junior, enquanto espera pelo banho.

"Eles estavam em uma condi??o muito ruim porque a decomposi??o j? come?ou. Mas eu tenho f? em Deus que v?o ser identificados e que as fam?lias v?o poder dar um enterro decente para eles."

Decomposi??o ? uma das palavras mais repetidas no Posto de Atendimento Feij?o, uma das ?reas de reuni?o das equipes de resgate. Em breve, os corpos estar?o completamente decompostos e nem os c?es conseguir?o ajudar.

Nas primeiras semanas de resgates, tempestades de raios e chuvas fortes atrapalharam o progresso dos bombeiros.

"A chuva pesada atrapalha o movimento da aeronave, reduz a visibilidade dos pilotos e pode movimentar o pouco de lama que ainda resta na barragem", diz o tenente-coronel Anderson Passos, um dos comandantes das opera??es.

A empresa

Em 24 horas, autoridades organizaram uma for?a-tarefa especial, composta por membros dos minist?rios p?blicos estadual e federal, defensorias P?blicas das duas esferas, e policiais civis, militares e federais.

A investiga??o corre em tr?s ?reas: civil, ambiental e criminal. ? frente de tudo isso est? Andressa Lanchotti, uma promotora do Estado de Minas Gerais.

No 10? andar de um edif?cio cinza, de concreto, na regi?o central de Belo Horizonte, Lanchotti est? sentada em frente a um enorme quadro branco repleto de anota??es, listas de nomes e planos relacionados ? investiga??o.

"Isso n?o ? para voc?s," ela diz sorrindo, enquanto rapidamente vira o quadro contra a parede.

Lanchotti ? amig?vel, mas bastante direta. A trag?dia ? familiar a ela e a todos os brasileiros.

H? pouco mais de tr?s anos, em novembro de 2015, outra barragem do mesmo formato se rompeu em Mariana, matando 19 pessoas a apenas 75 quil?metros de Brumadinho.

Na ocasi?o, mais de 50 milh?es de metros c?bicos de lama t?xica se espalharam pelo rio Doce, atravessando mais de 500 quil?metros, em dois Estados, dezenas de cidades e milh?es de pessoas at? chegar ao Oceano Atl?ntico.

Foi o maior desastre ambiental da hist?ria do Brasil - e Lanchotti, no fim de 2016, se tornou a respons?vel por conduzir as investiga??es sobre o caso.

Mas, em todo o Brasil, e especialmente em Minas Gerais, lobistas e pol?ticos ligados a mineradoras exercem forte influ?ncia nestes processos.

Apenas dois meses depois da trag?dia de Mariana, em janeiro de 2016, enquanto autoridades ainda tentavam controlar o alcance da lama, o governo estadual de Minas aprovou a lei 21.972, que acelerava processos de licenciamento ambiental.

No m?s anterior, a BBC News Brasil revelou que o documento oficial do projeto de lei proposto por deputados federais para o novo C?digo da Minera??o, que definiria novas regras para o setor, havia sido criado e alterado em computadores do escrit?rio de advocacia Pinheiro Neto, que tinha como clientes mineradoras como Vale e BHP - apesar de ser assinado pelo deputado Leonardo Quint?o (PMDB-MG), relator do projeto de lei.

As mudan?as feitas a partir das m?quinas do escrit?rio iam de t?picos socioambientais a valores de multas em caso de infra??es.

J? em dezembro de 2017, o modelo de licenciamento usado pela Vale em Brumadinho foi criado pelo Conselho de Pol?tica Ambiental do Estado, o Copam, acelerando ainda mais o processo a partir de um dispositivo que ficou conhecido como "fast-track".

O novo formato permitiu, em alguns casos, encurtar o processo de licenciamento ambiental de tr?s etapas para apenas uma, tornando mais f?cil - e n?o mais dif?cil - para que companhias como a Vale consigam autoriza??es para minera??o em ?reas com riscos ambientais.

A dona da barragem de Mariana ? a Samarco, uma empresa tamb?m controlada pela Vale, junto ? mineradora anglo-australiana BHP. A empresa recorre contra uma multa do Ibama de R$ 350,7 milh?es (cerca de US $ 94 milh?es) por danos ambientais.

Acusa??es de homic?dio culposo tamb?m foram feitas contra 19 executivos da Vale e da BHP Billiton, mas os julgamentos ainda n?o foram adiante.

"O sistema de justi?a ? muito complicado", diz Lanchotti. "N?o se trata apenas dos promotores ou ju?zes. ? tamb?m que o sistema permite in?meros recursos, o que pode atrasar os resultados finais."

Ela lista problemas que v?o desde a falta de monitoramento at? a falta de vontade pol?tica para transforma??es efetivas, at? concluir:

"Enquanto estas quest?es n?o forem resolvidas, eu n?o posso garantir que novas trag?dias como estas n?o aconte?am no Brasil."

Apenas quarto dias depois da ruptura em Brumadinho, Lanchotti coordenou as pris?es tempor?rias de cinco pessoas - tr?s empregados da Vale e dois engenheiros da companhia alem? T?V S?D, respons?vel pelo monitoramento da barragem.

Estes engenheiros haviam sido contratados pela Vale para fazerem inspe??es regulares na barragem, obrigat?rias segundo a legisla??o brasileira, al?m de assinarem certificados de estabilidade da estrutura.

Com apenas 35 inspetores do governo para mais de 1.000 minas ativas e n?o ativas em todo o Brasil, a maioria das empresas contrata seus pr?prios inspetores privados para assinar a papelada - uma pr?tica permitida pela lei, mas criticada pela sociedade.

No caso da Vale, foi a empresa alem? T?V S?D.

"Muitas vezes, as ag?ncias governamentais n?o realizam inspe??es, mas delegam essa responsabilidade de volta ?s pr?prias empresas, para monitorar suas pr?prias atividades", diz Lanchotti. "Infelizmente, os eventos recentes mostraram que essa forma de automonitoramento simplesmente n?o ? eficaz".

Para especialistas, o caso tamb?m gera poss?veis conflitos de interesses.

"As empresas tendem a escolher auditores que ofere?am a opini?o mais f?cil, r?pida e barata poss?vel ", diz o professor da UFJF Bruno Milanez, especialista em pol?ticas ambientais e membro do Comit? em Defesa dos Territ?rios frente ? Minera??o.

"Nas ?ltimas grandes interrup??es de barragens que tivemos em Minas Gerais - 2014, 2015 e 2019 - os auditores escolhidos e contratados por essas empresas haviam certificado essas barragens poucos meses antes dos epis?dios", diz. "? importante entender que essa falta de recursos ? uma op??o pol?tica e que o or?amento da Ag?ncia Nacional de Minera??o foi reduzido em 2018."

Hoje, em Minas Gerais, o or?amento total para a inspe??o de barragens ? de R$ 163 mil.

Dois dias ap?s as pris?es, advogados da Vale conseguiram um habeas corpus de soltura dos cinco homens no Superior Tribunal de Justi?a. Eles foram fotografados na sa?da da Penitenci?ria Nelson Hungria, em Contagem, com os rostos cobertos por casacos e folhas de papel.

Mas partes dos depoimentos dos executivos foram vazados pela Pol?cia Federal dias depois.

Parte do vazamento, publicado no Jornal Nacional da TV Globo, mostrava uma troca de e-mails registrada apenas dois dias antes da trag?dia. Nas mensagens, executivos discutiam leituras discrepantes em equipamentos que mediam a press?o na barragem.

Um dos engenheiros da T?V S?D, Makoto Namba, chegou a ser questionado pela pol?cia sobre o que faria, considerando essas leituras, se seu filho estivesse trabalhando no local da represa.

Ele respondeu, segundo o relat?rio, que "ap?s a confirma??o das leituras, ligaria imediatamente para seu filho para que sa?sse do local, e que tamb?m ligaria para o setor de emerg?ncia da Vale respons?vel pelo acionamento do PAEBM [Plano de A??o de Emerg?ncia de Barragens de Minera??o] para as provid?ncias cab?veis".

Em seu depoimento, ao qual a BBC News Brasil tamb?m teve acesso, Makoto Namba tamb?m disse que se sentiu pressionado por um funcion?rio da Vale a assinar o laudo de estabilidade da barragem em junho de 2018.

Tanto a Vale quanto a T?V S?D disseram ? BBC que n?o comentariam o caso enquanto as investiga??es estiverem em andamento.

Um funcion?rio da Vale que sobreviveu ? trag?dia e concordou em conversar com a BBC News Brasil em condi??o de anonimato confirmou problemas recentes na barragem - onde trabalhava diariamente.

Segundo ele, um encanamento quebrado vinha despejando ?gua de uma nascente existente na parte superior da barragem, dentro da estrutura que se rompeu em Brumadinho desde pelo menos o fim de 2018.

"A nascente ficava na cabe?a dela", diz. "Dizem que (o cano da nascente) tirava essa ?gua para fora (da barragem). S? que esse cano foi rompido. Esse cano rompeu e essa ?gua estava caindo no meio dela. Tanto que o meio dela era molhado. O meio dessa barragem era molhado, o meio n?o era seco, n?o."

Ele conta ter notado o vazamento pela primeira vez um m?s antes do desastre.

A fala refor?a suspeitas investigadas pelo Minist?rio P?blico e pela Pol?cia Federal. Em depoimento no dia 1? de fevereiro, o engenheiro Makoto Namba afirmou que sabia da exist?ncia de uma nascente na parte superior da barragem e diz que parte desta ?gua era despejada dentro da estrutura.

"A ?gua excedente desta nascente corria para dentro da barragem", disse o engenheiro aos investigadores, admitindo que a chance de "ruptura (da barragem) estaria acima do recomendado". Ainda de acordo com o depoimento, Namba afirmou que solicitou que a Vale fizesse um estudo sobre as nascentes localizadas na parte superior da barragem. Disse tamb?m que, em julho de 2018, foi constru?da uma barreira e colocada tubula??o na nascente para desviar a ?gua do reservat?rio. O estudo, segundo ele, estaria em fase de contrata??o pela Vale.

Para especialistas como o professor Carlos Martinez, que d? aulas sobe seguran?a de barragens nas universidades federais de Itajub? e de Minas Gerais, em Belo Horizonte, o epis?dio narrado confirmaria suspeitas percebidas em imagens de sat?lite da regi?o e sugeriria que a ?rea deveria ter sido imediatamente evacuada por "risco iminente de ruptura".

"H? fotografias mostrando que esta ?rea estava escura. Fotos tiradas dois, tr?s dias antes mostrando que estava escuro, o que indica que havia ?gua acumulada. Era evidente que havia risco", afirma.

"?gua constante vindo da nascente aumenta a press?o na barragem. A exist?ncia da nascente vertendo ?gua para dentro da barragem seria inaceit?vel. Se for confirmado, ? inaceit?vel que a ?rea n?o tenha sido evacuada na hora", afirma.

Martinez continua: "O topo molhado j? seria motivo para sair correndo, se a seguran?a estivesse sendo levada a s?rio pelos t?cnicos. Porque isso mostra que h? infiltra??o, que a ?gua n?o est? sendo absorvida como deveria. Quando ? assim, a press?o dentro da barragem cresce tanto que os filtros come?am a se sobrecarregar. O sinal de alerta mais importante ? justamente isso, quando a ?gua acumula e come?a a molhar tudo."

Questionada, a Vale n?o comentou sobre a exist?ncia de nascentes na parte superior da barragem, como indicado pelo funcion?rio, e se limitou a informar que "n?o havia nascentes dentro do corpo da barragem".

"N?o havia registro de aumento nos n?veis de ?gua na barragem. Ao contr?rio, os dados indicam redu??o neste n?vel na se??o principal da estrutura", disse a empresa.

Amea?a iminente

Duas semanas depois do desastre de Brumadinho, sirenes tocaram no meio da noite em duas outras barragens de Minas Gerais, anunciando um poss?vel colapso.

A Vale ? dona de uma delas, pr?xima a cidade de Bar?o de Cocais, a mais de 120 km de Brumadinho. A outra, pr?xima ? Itatiaiu?u e a apenas 30 km de Brumadinho, ? controlada por outra mineradora, a ArcelorMittal.

Da noite para o dia, 700 pessoas foram evacuadas para gin?sios e hot?is.

Dias depois, mais um alarme, novamente em uma barragem da Vale, soou em Nova Lima, a 40 km de Brumadinho. Mais 100 pessoas tiveram que deixar suas casas. A cidade de 93,5 mil habitantes ? rodeada por nada menos que 26 barragens de minera??o.

A sequ?ncia de alertas, logo ap?s a trag?dia, parece ter finalmente chamado aten??o para a escala do problema no pa?s.

H? pelo menos 790 barragens de rejeitos em todo o Brasil, muitas delas localizadas logo acima de vilarejos ou cidades, como era o caso do C?rrego do Feij?o.

Todas elas foram classificadas por seus potenciais de risco. A escala n?o estima as chances de ruptura, mas o estrago que cada uma delas seria capaz de gerar.

Mais de 200 foram classificadas como "alto potencial de estrago" - ou seja, est?o acima de povoados ou pr?ximas a grandes rios e ecossistemas.

Tanto Brumadinho quanto Mariana haviam sido classificadas como "baixo risco de ruptura" por inspetores do governo, mas "alto potencial de estrago" por conta de sua posi??o geogr?fica.

Em Minas Gerais, a situa??o ? mais dram?tica. O Estado produz 53% de todo o min?rio de ferro brasileiro e re?ne a maior quantidade de minas e barragens do pa?s.

Itabira, onde a Vale foi fundada em 1942, tem 120 mil habitantes e 19 barragens. Em alguns bairros, os jardins das casas est?o diretamente virados para as montanhas de rejeitos. As cinco barragens mais pr?ximas abrigam um total de 423 milh?es de metros c?bicos de material t?xico - 33 vezes o volume lan?ado no m?s passado pela barragem de Brumadinho.

J? em Mariana, atingida em novembro de 2015, uma popula??o de 60 mil pessoas ? circundada por 15 barragens.

Nos arredores da cidade, no vilarejo de Bento Rodrigues, 600 pessoas vivem no amea?ador caminho de 5 barragens.

Dois meses ap?s se eleger, em dezembro do ano passado, o presidente Jair Bolsonaro prometeu relaxar as leis ambientais, argumentando que elas "trazem problemas intermin?veis" e "impedem que prefeitos, governadores e presidentes construam" projetos de infraestrutura.

Procurado pela BBC News Brasil, o governo n?o comentou as frases do presidente e informou que, ap?s o desastre, anunciou a proibi??o de novas barragens de rejeitos do modelo de Brumadinho.

As 87 que est?o atualmente em opera??o - 10 delas de propriedade da Vale - ser?o desativadas at? 2021.

Mas mesmo depois de uma mina ser desativada, as inspe??es de seguran?a devem continuar, j? que a lama t?xica ficar? para sempre dentro da barragem.

O governo tamb?m disse que pressionaria as empresas para garantir que as fiscaliza??es sejam mais rigorosas, mas n?o fez coment?rios sobre o n?mero de inspetores contratados para este servi?o.

Assim, essas verifica??es di?rias ainda dependem do sistema atual, pelo qual as empresas efetivamente monitoram suas pr?prias atividades.

'Nunca mais'

"Mariana, nunca mais."

Estas foram as palavras do CEO da Vale, Fabio Schvartsman, em um discurso em um audit?rio da empresa para colegas no dia em que tomou posse da empresa, em maio de 2017.

Dois dias depois do desastre de Brumadinho, ele prometeu novamente em uma entrevista na televis?o que trabalharia para "isso nunca mais acontecer".

Moradores de Minas Gerais e Estados como o Par?, onde a empresa explora boa parte de seus min?rios, e procuradores do Minist?rio P?blico est?o c?ticos, j? que esta n?o ? primeira tentativa de colocar a Vale nos eixos.

Eles reconhecem que levar uma empresa t?o grande e influente a assumir responsabilidades n?o costuma acontecer de forma r?pida ou simples.

Mas, at? o momento, alguns ju?zes e pol?ticos parecem estar mais atentos.

Decis?es judiciais j? suspenderam algumas das opera??es mais rent?veis ??da Vale e congelaram R$ 12,6 bilh?es (ou cerca de US$ 3,2 bilh?es) em ativos da empresa.

Vale lembrar que ainda n?o houve destina??o para estes valores - e bloqueios semelhantes aconteceram ap?s epis?dio de Mariana.

No final da semana passada, outros oito funcion?rios da Vale, incluindo dois executivos, foram presos provisoriamente. Mandados de busca tamb?m foram servidos para quatro representantes da alem? T?V S?D.

Na ?ltima sexta-feira, ap?s quase tr?s anos engavetado, o Projeto de Lei 3.676/16, conhecido como 'Mar de Lama Nunca Mais', foi aprovado pela Assembleia Legislativa de Minas Gerais por unanimidade.

O texto, que contou com mais de 55 mil assinaturas da sociedade civil, traz mais etapas para processos de licenciamento ambiental e fiscaliza??o e pro?be a constru??o de estruturas pr?ximas a comunidades no Estado.

De volta a Brumadinho, a luta dos moradores por justi?a e a reconstru??o de suas vidas est? apenas come?ando.

Sob uma enorme marquise branca, erguida como parte do esfor?o de resgate, mais de 400 pessoas esperaram sentadas pela chegada de representantes da Vale aparecerem.

Por semanas, muitas dessas fam?lias t?m vivido em abrigos tempor?rios, sobrevivendo de cestas b?sicas e ?gua engarrafada, tudo financiado pela empresa.

Com muitas escolas locais ainda fechadas, 30 ou mais crian?as jogavam futebol na parte de tr?s da marquise. Uma sala de aula improvisada foi criada por volunt?rios de igrejas, que oferecem pinturas faciais, um canto para leitura e um espa?o com almofadas para descanso.

Por gera??es, a Vale tem sido a principal fonte de renda e estabilidade para as pessoas que moram aqui. Mas as mais de 300 v?timas e outros milhares de desabrigados e desempregados trouxeram aos moradores um misto de raiva e temor por impunidade.

Depois de quase uma hora de espera, tr?s representantes da empresa aparecem. Mas o debate sobre compensa??es de emerg?ncia, abrigos e cadastros rapidamente escala para gritos e acusa??es.

"Para matar, voc?s s?o r?pidos", grita uma mulher no meio da multid?o.

"Voc?s mataram meu irm?o em 10 segundos e agora v?o esperar quantos meses para aliviar o que minha m?e est? sentindo?"

A resposta da Vale ? burocr?tica e desperta l?grimas em uma plateia abalada e impotente.

"Neste momento, n?o podemos nos responsabilizar por algo que ainda est? sendo avaliado. Primeiro, precisamos entender a extens?o do problema ", diz um dos representantes da empresa. "Ainda n?o temos informa??es suficientes para responder a essas solicita??es."

Semanas depois, quase um m?s ap?s o desastre, a Vale finalmente concordou em pagar renda de emerg?ncia ?s fam?lias. O acordo prev? que todos os adultos que vivem em Brumadinho e em comunidades no entorno receber?o um sal?rio m?nimo mensal (R$ 998), enquanto todas os adolescentes receber?o metade de um sal?rio (R$ 499) e as crian?as ter?o direito a um quarto do sal?rio: R$ 249,50 mensais.

Os valores ser?o pagos por um ano, retroativos at? a data da trag?dia - 25 de janeiro.

Como os moradores, o munic?pio ainda aguarda esclarecimentos.

Dias depois do desastre, o prefeito de Brumadinho, Avimar de Melo Barcelos, recebeu jornalistas na prefeitura e disse que a cidade "vive do min?rio".

"Cerca de 60% ou mais de nossa receita vem de royalties pagos pela minera??o de min?rio de ferro. E a maior parte ? paga pela Vale", disse.

Segundo Barcelos, a cidade "pararia" sem os recursos.

"Vai parar o com?rcio, vai parar quase tudo na cidade. N?s temos hoje 26 postos de Sa?de da Fam?lia, temos hospital, Unidade de Pronto-Atendimento, temos as escolas, que n?s d? o material escolar, tudo de primeira qualidade, n?s n?o vamos ter como atender isso mais", afirmou.

"Infelizmente essa ? a realidade e a gente vai cobrar da Vale."

Edmundo Netto Junior ? um procurador federal que trabalha na for?a-tarefa que investiga a trag?dia.

Ele passou todos os dias do ultimo m?s visitando fam?lias que perderam - ou ainda procuram os corpos de - parentes.

Uma das fam?lias inclu?a o pequeno William, de sete anos.

A tia do garoto mostrou ao procurador um desenho feito por William naquela manh?.

No centro da imagem est? um helic?ptero brilhante pintado de azul e branco.

Mas, pendendo da parte inferior da aeronave, uma linha comprida representa uma das redes usadas pelas equipes de salvamento para recolher corpos na lama.

"Ele deu este desenho para um dos bombeiros e pediu para encontrarem seu av?", conta Netto Junior.

A pintura de William tamb?m mostra um tra?o vertical forte, desenhado logo atr?s da rede dos bombeiros.

A imagem lembra uma cicatriz escura cortando a paisagem.

"Isso ? muito forte", diz o experiente procurador. "Esta ? uma comunidade que foi marcada para sempre."

Para ele, as trag?dias deveriam ensinar aos munic?pios que ? necess?rio diversificar fontes de renda e emprego. "? preciso construir um modelo menos dependente, em que outas atividades econ?micas sejam prestigiadas. A minera??o ocupa ?reas enormes que tamb?m poderiam estar produzindo outas coisas - sejam planta??es, ind?strias, seja com?rcio e servi?os."

Para ele, Mariana e Brumadinho deveriam ter imposto um modelo de minera??o sustent?vel ao pa?s.

"Uma minera??o menos lucrativa. As trag?dias nos mostraram que empresas como a Vale lucram a partir dos riscos que imp?em ?s comunidades. O mesmo risco que reduz custos quando uma barragem ? feita no modelo a montante permite a Vale um processo de minera??o mais barato e rent?vel - mas tamb?m custos mais caros para a sociedade ", continua Netto Junior.

"Esses custos foram escondidos sob o tapete por muito tempo, mas ap?s a trag?dia os preju?zos para a sociedade ficam cada vez mais claros".

O desenho de um menino de apenas 7 anos seria um dos exemplos.

"A comunidade esta traumatizada. E vai levar esses impactos psicol?gicos para a vida toda."

Reportagem: Ricardo Senra, com colabora??o de Camilla Costa, Amanda Rossi e Nathalia Passarinho

Produ??o: Claire Press

Fotos: Derrick Evans

Imagens adicionais: Corpo de Bombeiros de Minas Gerais, Mariana Rocha, Marcelo Camargo/Ag. Brasil, Getty Images, Google Maps, DigitalGlobe


Mais Lidos