A not?cia, divulgada mundo afora, ecoou como uma bomba, 40 anos ap?s o fim da Segunda Guerra Mundial: Josef Mengele, o m?dico de Auschwitz conhecido como "Anjo da Morte" e um dos criminosos de guerra mais procurados do mundo, estava morto.

A not?cia, divulgada mundo afora, ecoou como uma bomba, 40 anos ap?s o fim da Segunda Guerra Mundial: Josef Mengele, o m?dico de Auschwitz conhecido como "Anjo da Morte" e um dos criminosos de guerra mais procurados do mundo, estava morto.

Pelo menos ? o que resolveu comunicar ? pol?cia alem? a fam?lia do m?dico, em Guenzburg, na Baviera, em maio de 1985.

Como provas, foram apresentadas cartas escritas pelo m?dico a seu ?nico filho, Rolf Mengele, e a um funcion?rio da empresa da fam?lia, a fabricante de m?quinas agr?colas Karl Mengele & Sohne - que empregava cerca de 10% da popula??o da cidade.

A fam?lia dizia que Mengele havia morrido afogado em 1979, em uma praia de Bertioga (SP), no Brasil, provavelmente por causa de um derrame, e que ele fora enterrado em um cemit?rio de Embu (SP) sob a identidade falsa que vinha usando, a de um amigo austr?aco chamado Wolfgang Gerhardt.

Mas imediatamente surgiram teorias de morte forjada. E s? a ci?ncia poderia provar que Mengele, de fato, havia morrido, autenticando os restos mortais enterrados em Embu.

"Ele era o criminoso de guerra nazista mais procurado do mundo depois que (Adolf) Eichman (tido como 'arquiteto do Holocausto') foi preso, julgado em Israel e executado", conta ? BBC New Brasil o americano Eric Stover, procurado, na ?poca, pela ONG de direitos humanos Simon Wiesenthal Center para organizar um grupo de cientistas forenses e lev?-los ao Brasil.

"Muitos sobreviventes do Holocausto estavam revoltados, se perguntando como era poss?vel que Mengele conseguira escapar por tantos anos... Era importante encerrar esse cap?tulo, era importante saber que esse homem estava mesmo morto."

O 'Anjo da Morte'

O capit?o da SS (Schutzstaffel, for?a paramilitar do Partido Nazista) e m?dico Josef Mengele chegou ao complexo de campos de concentra??o e exterm?nio de Auschwitz em maio de 1943. Inspirado em teorias raciais nazistas, ele realizou experimentos em mais de 3 mil g?meos que eram entregues a ele assim que chegavam ao campo.

Ele matou centenas e dissecava seus corpos. Apenas 200 dos chamados "g?meos de Mengele" sobreviveram, entre eles a judia polonesa Jona Laks, deportada do gueto de Lodz para Auschwitz com sua irm? g?mea aos 14 anos. Em uma entrevista do arquivo da BBC, ela relata que "Mengele realizou experimentos de rara crueldade, como cirurgias ou retirada de ?rg?os sem anestesia".

"Se um dos g?meos ficava doente e morria, o outro era imediatamente assassinado."

Segundo o Museu do Holocausto, nos Estados Unidos, ao contr?rio do que muitos sup?em, Mengele n?o era o m?dico-chefe do complexo de Auschwitz. "Essa 'distin??o'", diz o site do museu, "pertencia ao capit?o da SS, o dr. Eduard Wirths". Mas a partir de novembro de 1943, Mengele chefiou o corpo m?dico do campo de Birkenau - o maior dos 40 campos de Auschwitz.

Cerca de 30 m?dicos trabalhavam em Birkenau. Fazia parte do trabalho deles "selecionar", de uma rampa, os prisioneiros que chegavam ao campo - entre os que serviriam para trabalho for?ado e os que iriam imediatamente para as c?maras de g?s.

Pelo jeito frio e indiferente com que despachava, com um gesto da m?o direita, prisioneiros para a morte, e por ter passado a impress?o - segundo relatos de sobreviventes - de estar na rampa mesmo nos momentos de folga, ? que Mengele recebeu o apelido de o "Anjo da Morte".

Hoje, sabe-se que, ap?s a guerra, ele passou um tempo escondido em uma fazenda na Baviera. Em 1949, fugiu para G?nova, na It?lia, de onde embarcou para a Argentina com um passaporte emitido pela Cruz Vermelha. Ele viveu na Argentina vendendo m?quinas agr?colas da f?brica de sua fam?lia.

No final dos anos 1950, quando se viu amea?ado de extradi??o, fugiu para o Paraguai. Pouco depois, fugiu de novo, para o Brasil. Sempre ajudado por terceiros, ele morou em fazendas, s?tios e casas em Nova Europa, Serra Negra, Caieiras e Diadema, no Estado de S?o Paulo, antes de se mudar para a capital paulista, em meados dos anos 1970 - e de adotar a identidade de um amigo, Wolfgang Gerhardt, que, antes de retornar a seu pa?s natal, lhe passara seus documentos.

Investiga??o forense pr?-DNA

Os restos de Wolfgang Gerhardt/Josef Mengele, exumados pela Pol?cia Federal no cemit?rio de Embu em junho de 1985, seriam examinados no Instituto M?dico Legal de S?o Paulo por especialistas brasileiros mas tamb?m alguns dos cientistas forenses mais respeitados do mundo: duas equipes dos EUA, a do Simon Wisenthal Center e uma do Departamento de Justi?a, e uma da Alemanha Ocidental.

Em meio ao que Stover - que na ?poca era diretor do programa de Ci?ncia e Direitos Humanos da Associa??o Americana Para o Avan?o da Ci?ncia e trazia consigo a experi?ncia de organizar equipes de identifica??o de ossadas na Argentina - chamou de "grande circo da m?dia", os cientistas reunidos em S?o Paulo tinham que avaliar se os restos exumados eram de um homem sobre o qual n?o se sabia quase nada desde 1945.

As t?cnicas de identifica??o por DNA ainda n?o tinham sido desenvolvidas - as primeiras identifica??es do tipo s? viriam nos pr?ximos anos.

"As evid?ncias f?sicas ante-mortem eram m?nimas", conta Stover. "De registros da SS t?nhamos apenas a altura e a circunfer?ncia da cabe?a - porque Mengele fez um quepe sob medida. Quando a investiga??o come?ou, descobrimos que a altura era consistente, que era do sexo masculino, caucasiano."

"Um dos antrop?logos forenses, Ellis Kerley, tinha desenvolvido uma t?cnica de contagem de ?steons nos ossos. ? medida que envelhecemos, nossos ossos ficam mais fr?geis. Se voc? faz um corte transversal no f?mur, conta os ?steons para identificar a idade de um esqueleto. Kerley estimou a idade do esqueleto como a de algu?m na faixa dos 60 anos (Mengele teria 67 em 1979)."

Os especialistas tamb?m encontraram evid?ncias de uma fratura na bacia - que pode ter resultado de um acidente de motocicleta que Mengele teria sofrido em Auschwitz. Tamb?m foram encontrados tra?os de fraturas curadas no ombro, na clav?cula e no polegar direito; e uma depress?o no osso maxilar esquerdo, poss?vel consequ?ncia de sinusite cr?nica.

"O cr?nio tamb?m exibia um diastema, uma separa??o entre os dentes frontais presente em cerca de 11% da popula??o. As indica??es eram, enfim, consistentes com as evid?ncias. Mas o que faltava mesmo era um raio-X, o que (na ?poca), era como uma impress?o digital."

O relat?rio final

Ao final dos exames, os especialistas americanos se reuniram no quarto do hotel em que estavam hospedados para preparar seu relat?rio. A reda??o ficou a cargo de Stover.

"A preponder?ncia de elementos sugeria que se tratava de Mengele. Mas na reuni?o houve um grande debate sobre dizer se isso era 'altamente prov?vel' ou 'dentro da certeza cient?fica', por causa da grande press?o sobre a equipe. A carreira dos cientistas forenses estava em jogo. O clima foi bastante tenso."

O relat?rio dos americanos concluiu "com razo?vel certeza cient?fica" que a ossada era de Mengele. A equipe alem? tamb?m chegara ? mesma conclus?o pela an?lise que fizera do cr?nio usando uma t?cnica de superposi??o de imagens, desenvolvida pelo antrop?logo Richard Helmer. Ele sobrep?s fotos do criminoso nazista sobre imagens do cr?nio e constatou consist?ncias em ?reas-chave como olhos, boca, nariz e queixo.

Em uma apresenta??o ? imprensa, no dia 21 de junho, o chefe da Pol?cia Federal brasileira, delegado Romeu Tuma, confirmava a identifica??o e a morte de Josef Mengele, e representantes dos tr?s pa?ses relatavam suas impress?es e achados.

Mas os cientistas ressaltaram que o veredicto n?o era baseado em um exame conclusivo, mas, sim, nas v?rias evid?ncias que davam consist?ncia ? tese.

O dentista de Santo Amaro

S? em mar?o de 1986, v?rios meses depois, viria a confirma??o do que Stover equivaleu a uma "impress?o digital": a compara??o da ossada com um raio-X.

Foi quando Tuma anunciou a descoberta de um raio-X de Mengele - e que especialistas americanos e brasileiros confirmaram ser da arcada dent?ria do cr?nio exumado em Embu. Tuma considerava o caso oficialmente encerrado.

A hist?ria dessa descoberta ? pouco conhecida no Brasil. ? porque ela se deve ao trabalho de "detetive" do ent?o c?nsul americano em S?o Paulo, Stephen F. Dachi, descrita em jornais americanos e narrada pelo pr?prio Dachi mais tarde para a Association for Diplomatic Studies and Training nos EUA.

Entre o material apreendido pela PF nas casas em que Mengele morou em S?o Paulo e arredores, havia um di?rio. A autenticidade desse objeto fora comprovada por especialistas em caligrafia do Departamento de Justi?a americano, que informou ao c?nsul que Mengele mencionava, nele, ter feito um tratamento de canal.

O di?rio fazia uma ?nica men??o a duas consultas, feitas em dezembro de 1978, com o "Dr. Gama em Sama".

"Assim que voltei a S?o Paulo, dei a informa??o ? PF", disse Dachi. "Eles retornaram ap?s duas ou tr?s semanas e disseram: 'N?o conseguimos ach?-lo (o dentista)'."

A pedido do Departamento de Justi?a, Dachi continuou a investiga??o por conta pr?pria, j? que, segundo ele, "a Pol?cia Federal brasileira n?o era capaz ou n?o queria faz?-lo".

Dachi contou ao jornal americano New York Times que tinha notado no di?rio que Mengele gostava de abreviar nomes, e se deu conta de que "Sama" poderia ser "Santo Amaro". Com a ajuda do vice-c?nsul, Fred Kaplan, ele consultou edi??es antigas das P?ginas Amarelas e chegou ao nome do dr. Hercy Gonzaga Gama Angelo, em Santo Amaro.

Acompanhado por um agente da PF, Dachi visitou o dentista, que confirmou ter feito tratamento de canal nas datas mencionadas por Mengele no paciente Pedro Hochbichler, o primeiro nome falso usado por Mengele no Brasil.

Gama n?o tinha raios-X, mas lembrava do dentista que tinha indicado o paciente para o tratamento: o dr. Kasumasa Tutiya, cujo consult?rio ficava a apenas a algumas quadras dali.

Lembrando a visita a Tutiya, Dachi disse ter perguntado "casualmente" ao dentista se ele tinha "algum raio-X" de Hochbichler. "E ele disse, 'espere um minuto', e voltou 30 segundos depois com oito filmes dent?rios."

Procurado pela BBC News Brasil, Tutiya n?o quis falar sobre o caso, que considera "um epis?dio encerrado na minha vida".

Enfim, o DNA

Mesmo com o raio-X refor?ando ainda mais a conclus?o dos cientistas, ainda havia uma parte importante que n?o estava convencida: Israel.

Stover contou que "algu?m da Intelig?ncia de Israel" acompanhou o trabalho da equipe internacional em 1985, sem dar mais detalhes.

"Os israelenses n?o aceitaram o relat?rio forense de 1985. Eles esperaram pela an?lise de DNA. O filho de Mengele, Rolf, e a mulher, Irene, relutaram mas acabaram cedendo amostras no in?cio dos anos 1990."

O teste de DNA, a conclus?o derradeira de que Mengele estava morto, foi realizado em 1992 pelo brit?nico Alec Jeffrey, um dos pioneiros da identifica??o gen?tica no mundo, e Israel aceitou o resultado.

Por que Mengele n?o foi pego?

Procurado por crimes de guerra e outras atrocidades, Mengele escapou da Justi?a por mais de 30 anos - e morreu num mergulho em uma praia. At? hoje se pergunta por que ele nunca foi pego pelas autoridades.

Para Stover, que depois participou de investiga??es internacionais de valas comuns na antiga Iugosl?via e em Ruanda, escreveu diversos livros sobre crimes de guerra e tortura e hoje dirige o Centro de Direitos Humanos da Universidade da Calif?rnia em Berkeley, Mengele teve ajuda, indiretamente, da crescente tens?o entre ?rabes e israelenses no Oriente M?dio.

"O Mossad (servi?o de intelig?ncia de Israel) esteve no Brasil e acredita-se que em uma ocasi?o chegou a falar com Mengele. Mesmo assim, nunca o pegaram. Isso porque no in?cio dos anos 1960, o foco da intelig?ncia em Israel se distanciou da ca?ada a nazistas e se voltou para os vizinhos, em particular o Egito, que estava desenvolvendo um programa de m?sseis."

O historiador brit?nico Norman Stone, que falava alem?o e participou de um painel de especialistas que autenticou as cartas de Mengele apresentadas pela fam?lia em Guenzburg, disse ? BBC em 1985 que Mengele nunca foi pego porque "francamente, acho que ningu?m estava procurando por ele".

"Ele estava se escondendo nos lugares mais ?bvios. Acho que Israel levou tantas cr?ticas pela captura de [Adolf] Eichmann [que a Argentina viu como a??o ilegal que feriu sua soberania] que decidiu n?o realizar outros sequestros do tipo. Acho que os alem?es ocidentais tamb?m deviam ter suas raz?es para n?o se empenhar."

"Mengele estava se escondendo em lugares ?bvios, se correspondendo de maneiras ?bvias com pessoas ?bvias e sendo ajudado por pessoas ?bvias. Para mim, esse fracasso em peg?-lo ? quase incompreens?vel."

J? assistiu aos nossos novos v?deos no YouTube? Inscreva-se no nosso canal!


Mais Lidos