Em 3 de julho de 1988, sob o golfo Pérsico ocorreu uma das maiores catástrofes na história da aviação mundial. Morreram 290 passageiros, entre os quais 66 crianças e 16 tripulantes que estavam a bordo do avião iraniano Airbus A300B2, atingido por mísseis dos EUA. A Sputnik revela as causas desta tragédia.

Dois mísseis

Naquele dia o avião da companhia aérea Iran Air fazia um voo de Teerã com destino a Dubai e com escala na cidade iraniana de Bandar Abbas, onde também se baseava a aviação militar do Irã. Dois mísseis de defesa antiaérea disparados do cruzador USS Vincennes da Marinha norte-americana atingiram o avião à altitude de quatro quilômetros, praticamente partindo a aeronave em duas partes.

Conforme o relatório governamental dos EUA, a tripulação norte-americana identificou erroneamente o Airbus civil, tomando-o por um caça F-14 Tomcat da Força Aérea iraniana.

Ao se justificar, os marinheiros diziam que o avião não respondeu a vários pedidos de mudar o rumo, sem mencionar que tentaram entrar em contato com o avião civil em uma frequência militar que lhe era desconhecida.

Medida de intimidação

Segundo o analista militar Yuri Lyamin, o Irã e os EUA na época estavam à beira da guerra, e os navios da Marinha dos EUA estavam sempre em estado de alerta. "Nos últimos meses do conflito americano-iraniano, os EUA atacaram repetidamente os navios do Irã. Os americanos afundaram várias lanchas, destruíram uma plataforma petroleira iraniana, danificaram uma fragata militar", conta.

Para ele, os EUA atingiram o avião de propósito, a fim de demonstrar ao Irã que iriam derrubar quaisquer aeronaves que considerassem ameaça para os seus navios. "Foi mais uma medida de força". Claro que, após a catástrofe, no Irã receou-se um conflito de grande escala com Washington. Em muitos aspetos é por isso que o Irã parou a guerra com o Iraque por não ter possibilidade de travar a guerra em duas frentes. Naquele momento o conflito militar entre o Irã e Iraque continuava há oito anos.

O cruzador USS Vincennes fazia parte do grupo de navios norte-americanos que protegiam os petroleiros e caravanas comerciais de possíveis investidas da Marinha iraniana. Apoiando o Iraque, em meados de 1988 os EUA enviaram navios à região do golfo Pérsico. O cruzador era dotado de mísseis de cruzeiro Tomahawk, armas de artilharia, torpedos e mísseis guiados SM-2MR.

Difícil de errar

Levando em conta a situação na região na época, claro que não se pode excluir um erro nas ações dos norte-americanos, mas os analistas afirmam que um operador experiente pode determinar com facilidade o tipo de aeronave.

O especialista militar Mikhail Khodarenok explica: "Sim, os erros são inevitáveis, em especial nas regiões de ações militares. Mas tomar um avião civil por um avião militar — isso pesa na consciência dos norte-americanos".

Ele ressalta que se pode culpar os EUA de pouco profissionalismo, deficiente cálculo e pouca preparação para identificar a aeronave.

Em épocas de paz, acrescenta, nas regiões com ativa movimentação civil, tentam não atacar os aviões que violam e espaço aéreo só com base nos dados de radares. Em primeiro lugar, um caça levanta voo e se aproxima da aeronave intrusa para estabelecer contato visual. O piloto comunica com este avião nas frequências internacionais e revela as suas intenções. Nada disso foi feito, embora os norte-americanos tivessem tudo o que era necessário para o fazer.

Condecorações dos heróis

O governo dos EUA não reconhece até hoje quaisquer violações por parte da tripulação do cruzador USS Vincennes. Nenhum marinheiro foi reconhecido responsável pelo derrube do avião civil. Além do mais, a tripulação foi galardoada com prémios pela execução rápida e organizada da missão.

A Casa Branca expressou pêsames na sequência da catástrofe, mas o então presidente, Ronald Reagan, chamou o assassinato de quase 300 pessoas de "ações de defesa necessárias".

No entanto, mais tarde, em 1996, os norte-americanos acabaram por concordar em pagar às famílias das vítimas cerca de 62 milhões de dólares (242 milhões de reais) no âmbito do acordo com o Irã sobre a retirada da demanda contra os EUA no Tribunal Internacional de Justiça da ONU.


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