Produtores do estado questionam onde estariam sendo usados recursos do Fundo de Transporte e Habitação, que deveriam ir para infraestrutura

As más condições das estradas utilizadas para o escoamento da produção agrícola de Mato Grosso tem deixado a cadeia agropecuária do estado inconformada. O setor questiona para onde está indo o dinheiro recolhido pelo Fundo Estadual de Transporte e Habitação (Fethab), que deveria ser revertido em melhorias na estrutura logística mato-grossense.
 
O produtor Dalírio Gloss tem investido em equipamentos de alta tecnologia para melhorar a rentabilidade do negócio. É o caso do armazém de sua propriedade no município de Canarana, no nordeste do estado, equipado com dois modernos secadores de grãos. No entanto, ele não consegue a mesma eficiência da porteira para fora, enfrentando frustrações a cada safra na hora de escoar os grãos. “Aí começa o grande gargalo atual do setor agrícola brasileiro, a infraestrutura”, diz Gloss.
 
Segundo ele, há estradas que não recebem máquinas para manutenção há mais de um ano. “Nós voltamos para os anos 90, quando nós começamos aqui e a estrada estava em melhores condições”, compara o produtor.
 
 

Gloss afirma que o valor que recolhe para o Fethab não está sendo investido em infraestrutura. Com isso, as estradas se deterioram ainda mais e as empresas que retiram o grão aumentam o valor do frete, diz o produtor.

Péssimas condições

Dalírio Gloss conta que um trecho da via municipal conhecida como Estrada do Queixada é o único corredor de escoamento de diversos produtores da região de Canarana. Em dias de chuva, segundo ele, são necessárias duas horas para vencer um trecho de 15 km da rodovia, por conta das péssimas condições de rodagem. 
 
“Você não sabe o que tem embaixo da água e pode ser um buraco fundo. Sempre quebra caminhão aqui, aí só no trator (para retirada do veículo). Eu já dormi várias vezes 'atolado', aguardando o dia seguinte para alguém vir ‘puxar’ a gente”, diz o caminhoneiro Hélio Júlio de Lima.

Repasse
 
O prefeito de Canarana, Fábio Marcos Pereira de Faria, reconhece que a manutenção das rodovias estaduais e municipais é responsabilidade da prefeitura. Mas afirma o repasse do Fethab não é suficiente para custear as obras. Segundo Faria, o Fethab Diesel – taxação que incide sobre a comercialização do combustível – deve resultar em um montante de R$ 500 milhões por ano. “Mas tem que tirar 15%, que vão para os Poderes, Assembleia Legislativa, Tribunal de Contas, Ministério Público… Do restante, 50% vai para o governo do estado e 50% para os municípios”, diz o prefeito. 
 
Canarana, segundo Faria, recebe do Fethab em torno de R$ 150 mil por mês, que devem ser utilizados para manutenção de 1.500 km de estradas não pavimentadas. “Estamos gastando em torno de 50 mil litros de diesel por mês, o que já dá R$ 200 mil de combustível, então só aí já foi o Fethab. Manutenção de equipamento, de pneu, de transporte, funcionário, todo o resto é o município que está arcando”. O prefeito lembra que também foi criado o Fethab 2, que incide sobre as commodities e é pago pelos produtores. “Mas o município não tem acesso (a esses recursos)”, afirma.
 
A situação das três estradas estaduais que cortam Canarana não difere muito do que se vê na Estada da Queixada. A MT-020, por exemplo, carece de pavimentação e de reparos, trazendo riscos ainda maiores para quem trafega em época de chuva.
 
O produtor rural Carlos Alberto Casotti afirma que, em janeiro, a região recebeu chuvas de 140 milímetros. “Acabou com as estradas, teve caminhão atolado, vários produtos como adubo não conseguiram chegar, comprometendo todo planejamento da safra”, enumera.
 
O presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil), Marcos da Rosa, afirma que a MT-020 foi levantada nos anos 1990 e, desde então, só tem recebido reparos, sem melhorias. “Nós nos sentimos até encabulados de pagar tudo isso que pagamos de Fethab e estar nessa situação", diz.
 
Rosa diz que sua propriedade realiza integração lavoura-pecuária, recolhendo Fethab todos os meses. “na época da safra, vão os grãos, e todo mês temos gado gordo e mandamos para o frigorífico, pagando Fethab. (Mas) Não temos aproveitamento nenhum do recurso com o qual nós contribuímos”, queixa-se o presidente da Aprosoja.

Governo de Mato Grosso 

O governo de Mato Grosso informou por meio de nota que a Secretaria de Infraestrutura e Logística vai começar, na Páscoa, uma operação para melhorar a tráfego no trecho mais crítico da rodovia MT-020, no município de Canarana. Quanto ao Fethab, o governo sustenta que tem aplicado corretamente o recurso em obras estaduais, obedecendo a legislação. Segundo a nota, nos últimos três anos teriam sido concluídos 2.400 km teriam sido asfaltados com recursos do fundo.


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