Economistas ouvidos pelo G1 vêem pouco espaço para manter a Selic em queda na próxima reunião do Copom; BC baixou os juros para 6,75% ao ano.

A decisão do Banco Central de cortar a Selic em 0,25 ponto percentual já era esperada pelo mercado, mas apontaram ao G1 como prudente a sinalização do Banco Central de que o ciclo de cortes pode estar perto do fim. O Comitê de Política Monetária (Copom) anunciou nesta quarta-feira (7) a redução da taxa básica de juros da economia, que passou de 7% para 6,75% ao ano.

No entanto, no comunicado que anunciou a decisão, o BC sinalizou que a taxa deve permanecer inalterada na próxima reunião, a não ser que haja alguma mudança significativa no cenário econômico. ?Para a próxima reunião, caso o cenário básico evolua conforme esperado, o Comitê vê, neste momento, como mais adequada a interrupção do processo de flexibilização monetária?, disse o BC em nota.

Para o economista Roberto Luis Troster, o cenário de inflação controlada até permitiria novos cortes, mas indicar que o ciclo de redução deve ser interrompido é uma forma de se preparar para volatilidades.

?No curto prazo, até poderia baixar um pouco mais, mas é arriscado. Ter um poquinho de ?gordura? é oportuno. Faz três dias que teve aquele susto nas bolsas do exterior, por exemplo, o que mostra que sempre podemos estar vulneráveis?, lembra ele. Ele também inclui em sua análise sobre possíveis volatilidades a instabilidade esperada de um ano eleitoral.

?A inflação vai ficar baixa se não acontecer nenhum evento extraordinário no curto prazo. Mas vai ser um ano de volatilidade, então é sempre bom ter um colchãozinho. É prudente?, diz Troster.

Para Marcos Caruso, do Banco Pine, o comunicado do BC até ?deixa a porta aberta para um novo corte de juros na próxima reunião, mas o cenário está bem claro de que não deve cortar novamente?, já que uma nova redução foi condicionada a uma mudança significativa no cenário.

?Para a gente ir para um cenário de novo corte, teriam que acontecer coisas bem mais surpreendentes?, analisa Caruso.

O professor de economia da FGV-SP Emerson Marçal também acha provável que o BC interrompa os cortes nas próximas reuniões, a menos que surja uma surpresa deflacionária muito forte ou que a economia não reaja conforme o esperado.

?Eles já reduziram bastante os juros e vão esperar para ver se a inflação vai ficar bem comportada. Já estão muito próximos do limite de uma taxa que não vai pressionar a inflação?, afirma.

Reforma da Previdência

O economista Jason Vieira relaciona essa condicionante à um novo corte de juros diretamente à reforma da Previdência, que ainda não foi votada e se encontra no centro de um impasse entre o governo e o Congresso. Para Vieira, ao dizer que uma interrupção do ?processo de flexibilização monetária? é adequada ?se o cenário ?evoluir conforme esperado??, o BC dá uma sinalização inédita ao mercado.

?Traduzindo do ?economês? para o português, ele quis dizer que se não houver a reforma da Previdência, este será o último corte da taxa básica de juros?, diz Vieira.

Mas Caruso, economista do Banco Pine, discorda que haja uma relação tão direta entre a reforma e as perspectivas de curto prazo para os juros. ?No longo prazo, é evidente que vai ter que fazer reforma da Previdência. Só que, no curto prazo, ela passando ou não, isso não está gerando desvalorizações persistentes no câmbio ou descolamento das expectativas e meta de inflação?, analisa.

Cortes e recuperação

O BC iniciou o ciclo de corte de juros em 2016. Marçal acredita que a economia já deu sinais de reação, como a produção industrial, que surpreendeu com crescimento de 2,5% em 2017 e a deflação dos alimentos, que ajudou no controle dos preços.

Troster lembra que o reflexo de um corte na taxa básica de juros na chamada ?economia real? demora em torno de um ano, mas ressalva que, ?no caso brasileiro, o poder da política monetária é mais fraco, porque o crédito não é tão sensível à taxa de juros?.

O economista justifica essa afirmação argumentando que, ?ao mesmo tempo em que a Selic vem caindo, a taxa do cheque especial ainda está acima de 300% ao ano, o que é inconcebível?.

Já Vieira comenta que o corte de 0,25% só será sentido entre agosto e setembro deste ano. ?Ainda estamos sentindo os efeitos dos cortes passados na Selic em nossa economia, como a melhora no nível de emprego, recuperação dos investimentos em bens de capital e dentro de um contexto inflacionário muito modesto?.

Nesta quarta, logo após a divulgação da decisão do Copom, os principais bancos do país anunciaram uma nova redução das taxas de juros cobradas no crédito para pessoas físicas e empresas.

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Entidades

Após a decisão do Copom, entidades divulgaram comentários sobre o novo corte da Selic. Uma delas foi a Associação Comercial de São Paulo (ACSP), que disse que apoia a decisão. ?É um corte adequado, considerando que a inflação segue baixa, o que abre espaço para a Selic cair mais?, disse em nota Marcel Solimeo, superintendente institucional da ACSP.

Para o presidente do SPC Brasil, Roque Pellizzaro Junior, a inflação em baixa e o ritmo ainda vagaroso do crescimento favoreceram a continuidade da queda dos juros, mas pondera que as incertezas de um ano eleitoral devem interromper o ciclo de queda. ?A expectativa é de que essa seja a última queda deste ciclo. Novas quedas vão depender de como vão se comportar os indicadores de inflação e de atividade.?

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) divulgou que o corte ?adianta muito pouco, porque os juros para o tomador final no Brasil ainda estão entre os maiores do mundo?. ?As altas taxas para o tomador final retiram poder de compra das famílias, inibem o investimento e a geração de emprego por parte das empresas e dificultam a retomada do crescimento.?

A Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), ?a única justificativa para a decisão do Banco Central de reduzir o ritmo de corte da taxa de juros é a incerteza quanto à aprovação da reforma da Previdência. Afinal, o equilíbrio das contas públicas depende dela?.


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