Pouco antes de ser aprovada no vestibular, Alinne Barbosa descobriu o tumor, que atinge 1 a cada 250 mil crianças e adolescentes. Agora, a missão dela é ajudar outros pacientes a superar a doença.

Desacreditada por médicos, Alinne Silva Barbosa, de 23 anos, descobriu que estava com um câncer raro no ovário pouco antes de ser aprovada para direito na Universidade Federal de Goiás (UFG), há cinco anos. Apesar de todas as dificuldades do tratamento, ela enfrentou a batalha, não desistiu da faculdade, se formou e, nesta semana, foi aprovada no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).

?Sinto que sou uma guerreira. Acredito que eu sou um milagre por tudo que passei, não consigo colocar em palavras o quão difícil foi, mas passou. A minha formatura foi a conclusão de uma etapa que começou muito difícil?, disse ao G1.

Alinne estava estudando para a segunda fase do vestibular da UFG, em janeiro de 2013, quando se sentiu mal. Ela achou que estava com fome, mas a mãe a levou ao pronto-socorro onde o médico disse, ao analisar a ultrassonografia, que era necessário buscar um ginecologista.

Logo depois, a então estudante procurou o médico da família, Clóvis Morogon. ?A prova era domingo. Para me tranquilizar, ele me disse que era super simples de se resolver. Então, eu me desconectei. Foi difícil fazer a prova porque estava sentindo muita dor, mas se soubesse da possibilidade de ser câncer, eu acho que não teria cabeça para fazer. Eu descobri que podia ser câncer na terça-feira depois da prova?, conta Alinne, que tinha 17 anos na época.

A advogada explica que o ginecologista a encaminhou para outro médico devido à complexidade do procedimento, que por sua vez, indicou a atual secretária de Saúde de Goiânia, Fátima Mrue, que é cirurgiã oncologista. Menos de 20 dias depois, a estudante fez, em fevereiro de 2013, a primeira das três cirurgias que passou.

?A médica tirou três quilos de massa de tumores. Fiz a dupla retirada do ovário. Também descobri que a dor que senti, na verdade, era de um apêndice que estava se rompendo?, relembra.

Câncer raro

Depois da cirurgia, Alinne iniciou o tratamento clínico. Segundo a médica responsável pela terapia, Danielle Laperche, o tipo de câncer da paciente atinge 1 a cada 250 mil crianças e adolescentes.

?O tumor dela é raro, de células que são responsáveis pela fertilidade. Ele tem chance de cura grande, mas é agressivo, progride rápido. O dela já estava em um estágio bem avançado, o que aumenta o risco da paciente porque a resposta fica mais difícil?, explicou a médica.

Alinne teve alergia à medicação adotada nas primeiras sessões de quimioterapia e foi necessário trocar o remédio utilizado. Ao todo, foram 15 ciclos de 21 dias. ?Foi um tratamento muito difícil, com muito efeito colateral e, nem por isso, ela parou. Ela precisou de muitas transfusões, teve inchaço, queda de imunidade?, explica Danielle.

A médica conta que levou o caso para discussões clínicas, e alguns profissionais alertaram para a dificuldade de cura da paciente. ?Eles avaliavam que o prognóstico dela era muito ruim porque estava evoluindo com muitas complicações e lento, que ela tinha uma chance baixa de resposta ao tratamento?, revela.

Por causa da gravidade do quadro de Alinne, a jovem afirma que um médico chegou a dizer, logo após a descoberta do câncer, que ela não sobreviveria.

?Um médico disse para a minha mãe que eu estava morrendo, não tinha solução, minha mãe sofreu muito, ficou desnorteada, mas para Deus não tem nada impossível, tive comigo pessoas maravilhosas?, ressaltou.

Em 31 de dezembro de 2013, Alinne passou por outra cirurgia por consequência de todo o tratamento. Ela teve o que os médicos chamam de brida, quando uma cicatriz cola no intestino e o obstrui, motivando uma intervenção imediata. Menos de três meses depois, a advogada passou pela terceira operação, desta vez, para a retirada do tumor que havia ficado junto ao fígado.

Por causa dos procedimentos cirúrgicos, a jovem tem uma cicatriz que corta todo o abdômen na vertical. Ela diz que a marca não lhe traz tristeza e não pretende tirá-la. ?Cicatriz de guerra?, brinca.

Força de vontade

Alinne fez questão de cursar a faculdade simultaneamente ao tratamento. O primeiro período foi o mais difícil, pois ela se sentiu mal porque não conseguia acompanhar a turma da forma como desejava. ?Eu lia, mas não conseguia entender, estava vindo de colégio em que era a melhor aluna. Foi muito frustrante. A psicóloga me ajudou a não me cobrar tanto, porque ficava triste e aquilo não estava me fazendo bem?, contou.

Como Alinne usava uma peruca, alguns professores só souberam da doença porque ela precisou ficar um mês fazendo exercícios em casa e, em outras ocasiões, não tinha como apresentar alguns trabalhos. Já a maioria dos colegas só soube da doença quando ela estava curada.

?Tinha batalhado tanto para estar ali que tinha de fazer a faculdade. Fazia quimioterapia das 7h às 17h e ia para a faculdade à noite. É importante ver que tem vida além do tratamento e que ela será sua de novo.?, opina a jovem.

Apesar dos obstáculos, Alinne sempre foi otimista, tentava ver o lado positivo dos problemas e esbanjava um sorriso no rosto. Um dos raros momentos de choro aconteceu quando ela soube que teria de cortar o cabelo. Até hoje ela guarda os fios.

Superação e inspiração

Contra a expectativa de muitos profissionais, Alline se curou e só faz exames a cada seis meses para acompanhamento. A advogada contou com o apoio de muitas pessoas durante o tratamento e quis agradecê-las por ter superado a doença e concluído a faculdade. Entre elas está Danielle, para quem escreveu um bilhete de agradecimento: ?Hoje, te convido para um momento muito importante em minha vida e o qual não teria acontecido sem o seu cuidado. Eu não estaria aqui se não fosse você?.

O otimismo de Alinne também inspira quem a acompanhou. Além disso, a gratidão dela motiva os profissionais. ?É uma paciente que passou por tudo e venceu pela cabeça, não foi um tratamento fácil. A gente acaba criando um vínculo com os pacientes, vendo mais que a família. A gratidão dela faz tudo valer a pena, você vê que está no caminho certo?, diz a médica.

A advogada avalia que a superação da doença se dá pela confluência de vários fatores, além do tratamento médico. ?Ter fé, se cercar de pessoas que te fazem bem e te querem bem. Família, amigos, alimentação correta e exercícios com o acompanhamento de um fisioterapeuta. Não se pode viver por conta daquilo, mesmo sendo difícil, pois é uma parte da sua vida e não por completo?, avalia.

A nova missão da Alinne é ajudar outras pessoas a venceram a batalha contra o câncer.

?Quero testemunhar a minha história para outras pessoas. Se uma pessoa se sentir motivada, já valeu a pena. Também quero passar em um concurso melhor para ajudar pessoas que não conseguem pagar pelo tratamento?, deseja.

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