Seis estudantes foram selecionados em processo especial, preparado pela universidade para os refugiados. O G1 conversou com um venezuelano e um haitiano que foram aprovados na seleção e entraram para a UFRGS.

Seis estudantes ganharam a chance de cursar uma graduação na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) após terem deixado seus países de origem por crise humanitária ou conflitos. O vestibular para refugiados da instituição teve sua primeira edição no início do semestre, e os novos alunos já estão em sala de aula. "É uma conquista para a UFRGS ter esses refugiados", reconhece a coordenadora de Ações Afirmativas da universidade, Denise Jardim.

Para a instituição, trata-se de uma oportunidade de ampliar a diversidade no campus.

"As universidades públicas são nutridas por sua diversidade e o ingresso de refugiados é coerente com a diversificação de trajetórias de seu corpo discente e intensificação da internacionalização", resume a coordenadora.

A seleção foi diferente do vestibular tradicional, e mais parecida com os processos de extravestibular, como explica Denise. Cada curso elaborou uma prova, de conhecimentos específicos ou entrevista, para poder fazer a seleção entre os interessados.

Os primeiros semestres serão dedicados ao estudo do idioma. Assim que forem aprovados no Certificado em Proficiência na Língua Portuguesa para Estrangeiros (Celpe-Bras), começam as aulas em seus respectivos cursos, junto com os demais universitários. "O grande desafio da universidade é reforçar e dar estrutura aos alunos", aponta Denise. Segundo a coordenadora, 10 estudantes não foram aprovados pela seleção.

Mais do que aprender o idioma utilizado em sala de aula, esta etapa deve permitir com que os alunos refugiados entrem em contato e se familiarizem com a cultura local. "Há a necessidade de instrumentalizar no português, mas o programa também é uma conversa dos aspectos do uso do idioma, das expressões que o gaúcho utiliza, da variedade do português de cada região", detalha a coordenadora.

Foram abertas 32 vagas em 19 cursos superiores da universidade, ofertados pelas próprias coordenações, que desejavam receber os alunos refugiados. O processo seletivo do ano que vem depende desta disponibilidade, como diz a coordenadora.

Nova chance para um venezuelano

O venezuelano Blas David Pacheco D'Ávila é um dos seis refugiados aprovados para estudar na UFRGS em 2018. Em Porto Alegre desde outubro de 2016, Blas deixou Caracas, onde vivia com a mãe e a irmã mais nova, após o agravamento da crise social que atinge o país. "Teve um momento em que tudo sumiu. Sem produtos de consumo diário, comida, luz. Nem agua a gente tinha. E não estou falando de pessoas de classe baixa, falo de geral, qualquer uma pessoa, seja da classe que fosse, não conseguia nada", conta Blas.

Diante das dificuldades, decidiu vir para o Brasil, onde o pai morava com a madrasta de Blas, médica pelo programa Mais Médicos. Ele enfrentou 24 horas de viagem de ônibus até Roraima, de onde pegou um avião rumo a Porto Alegre.

O primeiro passo foi encontrar um emprego. Conseguiu em um restaurante, e juntou dinheiro suficiente para trazer sua mãe e a irmã para o Brasil. Depois, foi atrás de um novo curso univesitário. "Eu cursava psicologia em Caracas, mas tive que deixar, pelos preços e a insegurança", lamenta.

Na UFRGS, ele optou por mudar de área e vai cursar Publicidade e Propaganda. "Vejo muito futuro nessa área", aponta o estudante. Ciente do desafio que é conquistar uma vaga na maior universidade federal do estado, Blas David reconhece que ocupa uma posição que muitos gostariam. "Pra mim, entrar na UFRGS foi um sonho, uma coisa que eu queria muito".

O objetivo de Blas é exercer a profissão aqui no Brasil mesmo. Voltar para Venezuela não é uma opção, pelo menos nos próximos 20 anos, conforme projeta o estudante.

"Pretendo voltar para meu país, só que não agora. É muito complicado ficar lá nesse momento. A insegurança é muito forte. Não tem futuro para um venezuelano lá."

Haitiano tem planos de mestrado e doutorado

O haitiano Horson Beaucicot é outro refugiado aprovado pela universidade, no curso de História. Vive em Novo Hamburgo há pouco mais de um ano, quando deixou Porto Príncipe em função das dificuldades econômicas e sociais que o país caribenho enfrenta.

A graduação, para ele, que possui visto permanente no Brasil, é o primeiro passo de uma nova vida.

"Não pretendo voltar para o Haiti. Não há liderança, nem leis, nem respeito aos direitos humanos."

Seus planos são concluir a graduação e ingressar em um programa de mestrado, e depois, doutorado, na área de Antropologia. "Só a saudade da minha família que me atrapalha. Aqui eu me sinto bem", conclui Horson.


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